Manhã cedo. Tudo a postos para, provavelmente, a etapa mais difícil da nossa viagem: Atravessar o deserto de Atacama, território duro, que para o ano vai receber o “Dakar” e onde não cai uma gota de chuva há mais de 400 anos. Outra vez mochilas às costas e tralha nas mãos. “Hasta la vista” caminha, que bons momentos passámos. Desayuno tomado, contas em ordem, actualizadas as despedidas. Quando chegámos ao Falcon, que brilhava ao sol da manhã, notámos uma ligeira inclinação à esquerda. Bad Mary!!! Vamos lá ver o que é agora? Depois de sujar a farpela de pó, deitados debaixo do carro depressa percebemos que, afinal, não era nada de novo. O eixo traseiro da suspensão, o mesmo que tinha sido soldado em Puerto Montt num “ferreiro”, estava de novo prestes a partir-se. Seguiram-se uns bons minutos de repertório vernacular, versão luso-francesa, uns quantos pontapés no dito, um certo desespero, que depois cedeu lugar a uns instantes de cabeça-fria, para chegar a três conclusões, cada uma mais plausível que a outra: A primeira é que ainda não tínhamos bebido café. A segunda é que tínhamos de encontrar um “herrero” em Vallenar. A terceira, claro, é que ainda não era hoje que íamos para o deserto de Atacama.
“Hola, que tal? Tiene una habitación para hoy? Puede ser la 12, donde estabamos nosotros hace quarto de hora?” A dona do hotel não aguentou. Desatou a rir e disse: “Lo destino”. Pois, e um “herrero” conhece? “Que no, papi”. Bom, vamos lá levar as coisas de volta para o quarto onde estávamos e beber aquela coisa castanha a que chamam café. Mais uma vez, Vallenar aguardava por nós.
De taller mecânico em taller mecânico, lá acabámos por descobrir um ferreiro, que tinha um cigarro a apagar-se na boca, milagrosamente equilibrando cinza, e o seu partner ocupado a manter as mãos nos bolsos. Tinham acabado de pintar a sua pequena garagem. Foi uma trabalheira enfiar o Falcon de marcha-atrás, para cima de um pedaço de madeira, que não havia ali nada de hidráulico para levantar o carro. O truque era tomar retro-balanço, para empoleirar o carro. E tinha de se travar a tempo, se não o carro caia e a suspensão partia mesmo, junto, com certeza com mais algumas coisas. Depois de umas vinte tentativas e a escorrer suor, “listo”.
Depois de uma análise cuidada e olhar de “experto”: Muito bem, disse ele, pode-se arranjar esta peça juntando-lhe mais um pedaço de ferro e soldando-o. Ou, então, tinha de se pedir a um amigo dele para fazer uma igual à que o Falcon tinha antes. Naturalmente, não estávamos voltados para mais soldaduras. Queriamos uma peça nova, s.f.f., embora esta também tivesse de ser soldada. Só uma dúvida, aliás, duas: Quanto tempo ia levar e quanto nos ia custar? Depois de cuidada reflexão, que o obrigou a tirar o cadáver do cigarro, substituindo-o por um novo, disse o nosso ferreiro-mecânico que estava em condições de entregar-nos o carro ao fim do dia. Quanto ao preço: Como era para nós, 40 mil pesos. Perto de 60 euros. Bom, não estava mal. Isto é, se ficasse bem. O ferreiro olhava para nós com a cara “em que ficamos?” Lógica a resposta: Ficamos em Vallenar, a fazer horas para o almoço, para a siesta, para ir buscar o carro antes do jantar.
Ao fim do dia, como prometido, lá fomos. E o Falcon estava já estacionado cá fora, pronto para a entrega oficial. É verdade que continuava algo descaído, mas tinha uma peça nova. Pelo menos parecia. Que remédio. “Gracias, hermano herrero. Que te passe bien”. O melhor era estacionar o carro o parque do hotel, que o dia já tinha tido emoções em demasia. E logo de seguida, fomos jantar a um restaurante que tinha peixe na ementa, mas não tinha peixe. Estávamos animadíssimos. Tínhamos um carro com um eixo de suspensão novo, que diabos. E, na brincadeira, perguntámos à senhora se por acaso não tinha “wi fi”. Ao que ela responde que já nos tinha dito que não havia peixe. Sendo assim, pode ser uma dose de “pollo picante”, que nem com meia embalagem de Aji chileno picava.

Entretanto, juntou-se à nossa mesa um local, que também não era local, outro imigrante interno, que tinha vindo para Vallenar há quatro anos para procurar ouro e só encontrara caminho para continuar longe da família, em Valparaíso. Conversa puxa conversa, copo puxa copo, e o nosso novo amigo desde logo prometeu que nos ia levar a um “boliche” com muita categoria ali ao virar da esquina. Hora e tal depois, quando já se trocavam abraços e o amigo já tinha sido promovido à qualidade de hermano, ele resolveu mostrar uma colecção íntima de fotografias de telemóvel. Mulheres nuas em posições que é melhor não descrever. Ou será melhor? Não. Ou sim? Não. Comecei a desconfiar de que género era o “boliche” e exactamente em que categoria se posicionava. Entrámos por um longo e escuro corredor onde dançavam meia-dúzia de pessoas com ares de infelicidade, subimos uma escada em caracol, e eis-nos num estaminé de strip-tease. Integral, a avaliar pela rapariga que dançava no curto espaço entre dois balcões, mesmo assim conseguindo poses acrobáticas, sem derrubar um copo que fosse. Bom, tomámos o nosso lugar e pedimos o nosso copo. O nosso amigo Juan estava no seu elemento. Conhecia toda a gente, stripers incluídas, que no entanto não lhe sorriam de volta. Os números de strip sucediam-se a ritmo alucinante, para gaúdio dos presentes, cada vez mais animados. As mulheres, depois de tirar a pouca roupa que tinham, saltavam para o balcão, contorcendo-se, puxando os cabelos da rapaziada, untando os seios de creme Nivea, esfregando-os nas caras boquiabertas da clientela habitual, que pelos vistos estava a par da rotina. Nós nem por isso. E também não nos dava jeito ficar com creme Nivea a pingar no nariz. Monsieur Pazat fingiu que não estava a fotografar, mas estava. Passado um bocado foi-se embora. Eu fiquei o tempo suficiente para o rapaz da frente absorver naturalmente o creme. Juan teimava que eu tinha de ficar. E eu disse-lhe que ia lá abaixo comprar uns cigarros. Ele disse-me que estava tudo fechado àquela hora. Eu disse-lhe que talvez fosse capaz de encontrar qualquer coisa aberta. E desci. Na rua, de facto, era impossível encontrar um sítio onde houvesse cigarros. Até que o porteiro de “boliche” mais mal encarado que alguma vez vi, me disse que andava um velhote de gabardina por aí, que vendia cigarros, cobrando uma taxa. Lá andei pelas ruas de Vallenar à procura do velho da gabardina. Dei com ele, sentado, calmamente, a fumar um cigarro. No interior da gabardina tinha um verdadeiro arsenal de maços de cigarros. Um maço custava o triplo do normal. “Quieres o no?” Tentei normalizar o preço, sem sucesso. Paguei exactamente o que ele me tinha pedido no início. E, fumando, caminhei em direcção ao hotel. Nisto aparece Juan, na companhia de uma senhora de cento e tal quilos que, tanto quanto me recordo, não estava na sua colecção de fotos. Queria que eu voltasse lá para dentro, que a coisa estava a aquecer, disse. E eu disse-lhe que ia só ali ao hotel num instante e já voltava. Esqueci-me de lhe dizer quantas horas tem um instante.

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Boa sorte na travessia do Atacama!
Monsieur Pazat fez um bom trabalho hehe
Me gusta la fotografia del “conejito negro”….por la mirada atenta del chico…….se nota que está interesado en el tema……..será Juan?
Al Falcon le falta la matrícula de atrás… la guardaron o se les cayó por el camino?
Sacrée soirée!!! pas mal les photos!!!
Bonne traversée du désert…
Boa Sorte para Atacama!
Água, muita água!
AR
Vejo que têm andado por boas estradas com belas vistas
Hoje terminei de ler o livro do Gonçalo Mata que também descreve as suas aventuras na América do Sul. Vim há pouco tempo de uma pequena incursão ao pais dos cangurus e sonho/planeio as próximas andanças. Avisem-me com antecedência se o Falcon vier a Tóquio. Entretanto desejo-vos uma continuação de boa observação.
É pá, vocês chamem-me o que vos apetecer, mandem-me à M. ou pó C. que tanto me faz, digam o que quizerem…etc, etc e tal, mas se há coisa para a qual eu não tenho jeito nem saco, nem procuro ensaiar é estar calada…lamento, mas volto à carga estou muito desiludida com sua eminência Mr. Jordi!!!! Que má onda, que desilusão, que cena foleira…não quero fazer julgamentos precipitados, mas a coisa é muita feia!!!!Nem uma palavrinha aqui pó pessoal??? Lá não há neeeet!!!!! Que gajo, feldriiiiiix!!!!
Depois de todo aquele aparente envolvimento com este projecto????Provavelmente valoooores mais altos se “alevantam”!!! Vá Luis, manda-me bugiar, faz-me um texto demolidor (bem, isso era dar-me importância a mais, claro…, who am i????)
Que , que, que, que , puuuuto do caneco!!!!
Bem, depois de vtodo este feeeellll, três mil abraços para vocês os dois e um miminhom especial ao Falconito que, pelos vistos, ytem melhores sentimentos que muita gente, bem parecida…
Olha Luis, provavelmente esta cena vai cheia de erros, olha tanto melhor…se calhar o erro sou eu que não vejo o que devia ver em Mr. Burch, esse promissor fotógrafo da nova geração e o raio que o parta!!!Promissores são vocês que estão aí a dar o couro e o cabelo!!!!E o Cabrão do Falcon, que, esse sim é um gajo do caneco!!!!
A humanidade é muuuuuiiiiita gira!!!
Cool!!!!!!
Sem stress, esta tudo bem..
É pá, hoje dei um passeio por aqui, já estava com saudades!!!E… ó Pazat, de facto tens razão…CA GANDA PAR DE NALGAS!!!!POOOORRRRRA!!!!