
Que despertar jovial e carregado de energia de polaridade negativa. A altitude estava de novo e fazer das suas. Cansaço. Muito cansaço. Respiração pesada, a caminho do duche que, tal como nos barcos, fica mesmo ao lado da sanita, dispensando cortinas ou quaisquer apetrechos que salvem o papel higiénico de ficar ensopado. Este estabelecimento categorizadíssimo, que servia “desayunos” ao jantar, jantares ao lanche e, por “supuesto”, “almuerzo” ao “desayuno”, era uma espécie de bairro típico lisboeta. Se andássemos mais de um metro em linha recta a sair da “habitacion” já estávamos a entrar noutra. De qualquer modo, fosse qual fosse a ementa seria sempre melhor que o jantar no chinês da noite passada, onde se serviam adaptações de comida típica cantonesa com petiscos chilenos. Tudo acompanhado de pisco de terceira categoria. Dizemos isto, orgulhosamente com propriedade, agora que já podemos degustá-lo profissionalmente.
Dia grande: Estávamos apenas a uma centena de quilómetros de San Pedro de Atacama, que há mais de três dias era objectivo, antes de impossibilidades e imprevistos terem conspirado contra “nosotros”. Depois de tantos e tantos mil quilómetros, não seriam certamente estes cem, por entre uma galeria montanhosa de quadros magníficos da cordilheira andina, que haviam de se colocar no nosso caminho, que era exactamente onde estavam. O ritual da manhã foi especialmente difícil. E, não fosse termos um sítio para ir, era quase certo que não tínhamos ido. Abre lá o capot, franchotti. Não te importas de ver os níveis de “aceite”? Depois dá um mirone no radiador, para ver se tinha água? Monsieur Pazat faz estas tarefas já mecanicamente, em silêncio, como se estivesse na boxe de uma equipa de fórmula qualquer coisa. Vamos então à estação de serviço ao virar da esquina atestar o “leão” de nafta, cumprimentando a santinha de tablier com o anelar, ritual que cumprimos diariamente não sei bem porquê. Duas injecções, de ampolas nescafé, para fingir que estávamos cafeínados e toca para a estrada, que a ansiedade já apertava. Era talvez dos percursos menos longos e mais bonitos o de hoje. Embora o nosso chefe mecânico já tivéssemos notado que os travões não estavam no Falcon para travar. Também não eram especialmente decorativos. Mas, nas descidas, sempre que tentávamos usá-los deixavam um aroma a churrasco, anunciando-se que ainda podiam estar para as curvas, mas já não eram de grande utilidade nas descidas vertiginosas que se seguiam às subidas em segunda velocidade. O Falcon não é um trepador. Hoje em dia também não é um velocista. O que é, sim, é um automóvel com todas as letras e acento, o “v” grande na palavra viatura, o carro que passa quando os pequenos utilitários estacionam à beira da estrada, envergonhados, à espera de reboque. Não tem computador de bordo, mas tem a bordo dois tipos que já lhe notam a têmpera, os amuos, as estratificações do seu fôlego.
A propósito: Decorridos pouco mais de cinquenta quilómetros de jornada, a anestesia que o cenário e a altitude nos impunham, foi subitamente interrompida por um estranho barulho, decidamente metálico, que primeiro se manifestou descontínuo, mas depois começou a trovejar como o ressonar de um francês, o mesmo que já punha as mãos na cabeça, que a mim dava-me vontade de fazer o mesmo, embora não me desse muito jeito nas descidas.
Na próxima recta, convinha estacionar para abrir o capot, deixar o motor arrefecer, deitar-lhe um pouco de água em cima, para acelerar esse processo, e tentar ver o que se passava com o coração do Falcon. Tínhamos a certeza que era o motor, até porque era de lá que saia fumo. E isso não era grande certeza para se ter entre o destino e a procedência. Bom… com calma. Vamos abrir a mala do carro e tirar umas calças, que estava um frio de rachar os calções. Agora, sim, podemos tirar as malas suficientes para encontrar umas ferramentas. Infelizmente, entre a tralha não conseguimos encontrar o nosso alicate. E, após breve reunião, confirmámos um ao outro que tínhamos comprado um algures. O primeiro diagnóstico em relação à possível avaria, foi certeiro. Um das velas dos seis cilindros tinha acabado de morrer, não sabendo nós se isso seria o bastante para o carro não andar. A verdade é que ele andava, embora o ruído e o fumo, que resultava de uma borracha, a mesma que envolvia a vela enferma, estar a derreter. Mais que um alicate, precisávamos desesperadamente de uma vela. E sabíamos que também tínhamos uma algures no carro. Vai de tirar, pois, tudo o que estava na mala do carro. Nada. Vai de vasculhar tudo o que estava no interior do carro. Nada. Vai de desesperar? Não. Vai de mergulhar outra vez na mala do carro, uma piscina de pó. Nada. Vai de desesperar? Não. Vai de vasculhar de novo os destroços de coisas. Nada. Desesperamos ou não? Não. Vai de ligar o carro e avançar lentamente, para melhor apreciar o paraíso onde estávamos, ao som ensurdecedor do motor, poupado nas descidas, embora para isso tivéssemos de arriscar ficar sem travões. Podemos, então, desesperar? Agora também não valia a pena. Foram precisas quase duas horas para fazer cinquenta quilómetros. E eis San Pedro de Atacama, que tem muito mais pó do que a mala do nosso carro, e uma estrada que leva directamente ao fim de San Pedro de Atacama, onde fica o controlo policial e aduaneiro. San Pedro do Atacama é considerada a capital arqueológica do Chile e, para além do já dito, tem um posto de correios (com telefone e fax), um posto médico, o registo civil, o antigo posto de carabineros, hoje ao serviço dos carabineros, tem pousadas e hostels em grande quantidade, restaurantes (”cocina de autor”), bares e casas de artesanato a abarrotar, turistas que enchem o pueblo, agências de viagem a promover uma ida ao salar de Atacama ou para esquiar na areia, uma igreja e uma estação de serviço. Mas a grande questão era: Terá um mecânico? No posto aduaneiro achavam que não. Os carabineros achavam que sim. Na estação de serviço aconselharam-nos um rapaz que sabia de motores, para onde fomos de imediato, antes que o Falcon desmaiasse e, de certo modo, para tranquilizar os ouvidos sensíveis dos turistas, algo escandalizados com a presença de um veterano de Detroit naquelas paragens.
Demos, portanto, com a dupla de mecânicos mais tranquila da toda a América do Sul, o mais velho boliviano, o mais novo, nativo atacameño. Ambos pareciam também algo afectados pela altitude. Depois de várias tentativas para que respondessem qualquer coisa aos nossos cumprimentos, 15 minutos depois uma resposta: “Que pasa?” Passa que estamos aqui há 15 minutos para ver se os meus amigos conseguem arrancar uma certa vela ali do motor. E, se não fosse muito trabalho, substitui-la por uma nova. O líder mecânico - dono deste magnífico taller -, avançou para o capot previamente aberto, ainda se queimou na vela, soprou o dedinho e disse: Brasileños, macho?” Há que tempos que não ouvíamos isso, señor Bolívia. Não, de Portugal. Não. Não é no Brasil. E a vela? Precisávamos de uma nova, disse o nosso amigo, já ladeado pelo seu adjunto, acompanhado um aprendiz de aprendiz, que entretanto, chegara de bicicleta. O triunvirato decidiu que para tirar a vela era preciso desmontar parte do motor, o que fizeram com grande dificuldade, embora com aquela tranquilidade de quem sabe que é o único mecânico das redondezas. Não foi fácil tirar o motor, mas foi ainda mais difícil tirar a vela, que entretanto estava “soldada” a su sítio.

A custo, lá saiu a vela. Agora, sim, podíamos passar ao problema seguinte: A nossa equipa técnica não dispunha de vela. E também não era certo que houvesse uma vela do modelo de velas em questão em todo o San Pedro de Atacama. Agora até logo, tinham que ir almoçar. E lá ficámos nós, ao calor, a dormir a “siesta” no carro, à espera que os amigos fizessem a digestão. Não sei porquê, pensámos que um deles se encarregaria de procurar uma vela, mas não. Lá fui eu correr San Pedro à procura de uma vela, do mesmo modelo daquela que eu levava na mão. Não, não, não, aqui também não. Quando cheguei, o adjunto ofereceu-se para ir comigo de carro, num carro que ele tinha lá para arranjar, que por acaso tinha a caixa de velocidades avariada. Uma hora e tal depois, havia consenso: Não havia uma vela daquele modelo em Atacama. O líder sugeriu então: “Limpíamos esta”. Então só bastava limpar a coisa? “F……”

Então, e para onde é que nós queríamos ir? Para o Paso de Jama, que por acaso fica a quatro mil e 800 metros de altitude. Ainda não tínhamos decidido se seguíamos directamente para a Bolívia ou se reentrávamos na Argentina, para depois seguir para a Bolívia, caro cinco estrelas. Contámos a anedota do dia. O adjunto ria tanto que quase aterrou com o nariz no lugar onde devia estar a vela, que agora estava a ser limpa pelo aprendiz de aprendiz. Os nossos mecânicos achavam uma loucura subir com o Falcon, ainda pior fazer o caminho para a Bolívia, caso chegássemos ao respectivo cruzamento, entrando numa estrada de gravilha duríssima, impraticável quando chove, pelo menos sem um 4×4. Como viam que estávamos irredutíveis, aliás, não tínhamos escolha, o grande líder deu-nos conselhos inestimáveis: Ir parando o carro e arrefecer o motor deitando-lhe água em cima. Comprar líquido anti-congelante e “aceite” mais consistente para as alturas. Quanto aos nossos organismos pouco habituados e esses tipos de altitude, era bom que soubéssemos que há muita gente que se “passa” lá em cima, que não convinha bebermos pisco nem vinho tinto, apenas cerveja. E que seria boa ideia levarmos uma boa quantidade de folhas de coca para mascar, que descontrai. Aprovado.
Ainda por cima, a operação de limpeza da vela tinha resultado em pleno. O motor rugia de novo com pujança. “Que lhes vaya bien, chicos!” Gracias e hasta luego. Conseguimos por algum milagre encontrar o hostel mais barato de Atacama. Depois, jantar. Depois, pisco night. Conhecemos Oscar, artista plástico, com entrevista publicada na Marie Claire, que se sentou à nossa mesa, até cair da nossa mesa. Depois de carregar com Oscar até às proximidade de um bar onde ele quis ficar, fizémos declaração oficial de amizade. Amanhã, quando ele estivesse bípede, continuaríamos a conversa. Era uma da manhã. Por ordem dos carabineros, hora de todos os bares encerrarem. Foi por causa de problemas recentes, informaram-nos. Ainda assim foi possível um último pisco num bar pós-modernista, que tinha uma fogueira a meio e as portas já fechadas. Quando saímos estava Oscar amparado num casal. Ninguém, mas ninguém com quem falámos sobre a nossa subida ao Paso de Jama com o Falcon achou possível lá chegarmos. Que buena estatística para adormecer.
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Grandas fotos!
Gui
Grandes fotos Gui. Grande texto Luís. e Grande aventura muchachos. Esta viagem sem o Falconito não era a mesma coisa. E pensar que o problema se resolvia com a limpeza da dita cuja vela??? Muchachos depois desta viagem podem dedicar-se à mecânica, o Falcon já vos ensinou muita coisa…
E vocês já estão pró. Espero que a próxima etapa corra bem e sem problemas de maior porque para cansaço já chega o provocado pela altitude não precisam de mais aventura que essa!!!
Besos muchachos e muita força.
encore une adresse de mecanicien que vous pouvez ajouter a votre liste….
texte et photos toujours aussireussis
bisous
be cool, brothers, be cool
and be happy………con unas hojas de coca, se arregla todo…….se quedan como los mecánicos de San Pedro……..tranquilos…….que el Falconazo
no los vá a dejar mal……….
por el resto, mas una vez concordo con cyberannie
(estás por Lisboa?, cuanto tiempo te quedás?)
Un gran abrazo y que no los agarre “El Mal de la Puna”!
Apiko
Boa!
Contra todas as espectativas dadas pelos mais “profissionais” mecânicos que vos têm acompanhado durante toda a viagem o 006, apesar do mais luxuoso membro da equipa, tem-se aguentado. É certo que a sua vontade prevalece sempre! Se não lhe apetecer … não anda! E lá vão o Gui e o Luís dar voltas e “travoltas” para satisfazer os seus caprichos e necessidades. Enfim… conseguiu que lhe fossem satisfeitas todas as regalias…
Pergunto… com a perfeita noção de poder ser impensável (sei que é mucho diñero!!!mucho mesmo), mas julgo que não impossível. Já poderaram a hipótese de após terminada a vossa viagem, fazerem chegar a Portugal o vosso célebre Falcon?
Mesmo que cá chegue 3 ou 4 meses depois de vocês???
Será uma ideia megalomana???
Continuação de boa viagem, bom trabalho e cuidado com as folhitas em locais muito elevados e com ar rarefeito…
AR
Olá viajantes incansáveis!!!
Como puderam permitir que vos servissem pisco de 3ça???!!!Inadmissível!!!
Bem ,espero que o que nos vão trazer seja de primeiríssima!!!!
Boa continuação, boa subida chilena, boa isto, boa, aquilo…tudo de bom!!!
3 mil abraços para vocês os dois e um miminho especial ao Faconito!!!
Cyberannie,Carla, Patrícia, rapaziada, eu estive na festa da Kameraphoto e conheci boa gente, sim senhora!!!!
Muchachos o périplo do Chile vai ficar na história!
Adorei a mão de ontem, apelativa e misteriosa, parece que nos chama para algures, mas tem algo de encantadoramente tenebroso…um grande momento desta viagem…sem dúvida!!
Que se mantenham em forma, até ao fim…
Ps: ainda não mudaram a hora do blogue!!!Cá em Portugal a hora adiantou de Sábado para Domingo!!
estas fotos são…são fabulosas!
olá rapazes, belas fotos e optimo texto, será que o falcon conseguirá chegar ao fim dessa fantastica viagem?, espero bem que sim e tambem sou de opiniao que deveria vir para portugal, para o nosso museu, beijinho.
Mr. Gui Pazat é boooooooommmmm sentir a sua presença por aqui!!!!
Olá!…apesar de nunca ter deixado comentário algum, é com grande entusiasmo e algum saudosismo que tenho vindo a acompanhar esta vossa aventura. Entusiasmo porque é uma das viagens que sempre ambicionei poder concretizar. Saudosismo porque, eu própria, por razões profissionais, vivi três meses em viagem pela Argentina, Bolívia, Chile e Perú entre Agosto e Novembro de 2006. Saudosismo porque me revejo em muitas das situações que o Luís tão bem descreve. Saudosismo porque, em virtude de não ter um Falcon que me transportasse, percorri os meus inúmeros trajectos nos “autobuses” e “minibuses” locais, num misto de noites mal dormidas, estradas pedregosas, caminhos tortuosos de montanha, paisagens desérticas mas fascinantemente abrasadoras, noites gélidas suavizadas pelo famoso Pisco (que em La Paz me garantiram ser boliviano!).
Espero que a viagem continue a correr bem e que, com o aproximar das elevadas altitudes, redobrem os cuidados para não sofrerem do famoso “soroche”!…Nada que não se resolva com algumas folhas de coca (que se mascam como chicletes…mas cuidado!…deixam a boca dormente!)…ou em último caso, com os famosos “soroche pills” que se encontram à venda na maioria dos kioscos e terminais de autobuses, para gáudio de todos os gringos!
Para quando está previsto o final desta aventura e a publicação do resultado final? Aguardo ansiosamente o desfecho!…e, quem sabe, quando andarem por Lisboa não tomamos um copo? Gostava de vos conhecer!
Tchau, chicos! Suerte!
Ao fim de 74 dias, um comentário… Que fotos magníficas! Parabéns a ambos
Las fotos estan de p* madre, e el texto aun mejor si es posible!
Bem hajam
ai essas fotos…
Pazat, Pazat, Pazat!!! Não terás o captor com grão? Não será o grão o captor? Não será o grão no captor o captor do grão? Em Nova Iorque são 23H06, em Bruxelas 05H06, em Moscovo 07H07. Agora pergunto: No entretanto, não terá passado um minuto?
Shit, man!!!!
HOJAS DE COCA………….ES LO QUE DÁ!!!
La próxima guerra entre Bolivia y Chile no es por la salida al oceáno pacífico………………….y sí por de quien es El Pisco.
Ahi tambien es el dia de las mentiras?
Buen viaje muchachos, estén donde estén!
Pois acho que por aqui há 2 tipos de bloguista: os hedonistas,fixolas e abstraccionistas e os muuuuuito “sérios”, rígidos e empata f.!!!
Tenho o maior respeito, consideração e admiração pelos nossos viajantes e, do que vou conhecendo deles, quase que aposto que têm abertura e grandiosidade suficientes para relativizarem os meus comentários mais “inconvenientes” e, quem sabe, até se rirem com eles…
Acho que nunca critiquei os comentários de gente “séeeeeria” e muito me admira a facilidade com que criticam os meus, que suuuuuperioridade, que soooooberba!!!!
No que respeita aos nossos heróis, miiiil bem hajam, miiil felicitações!!!
No que respeita ao meu projecto (para quem não interessa) “MULHERES QUE MAMAM DEMAIS”,pus um anúncio na net e encontrei um jovem fotógrafo promissor em ascenção que ACHOU MUITO INTERESSANTE!!!
O rapaz é de Bilbao, não me lembro do nome, mas tem um Z pelo caminho e já ganhou um premio qualquer coisa do Masters Class e….é um PÃO de criar bicho!!!!
Viu muito potencial no tema e al´m da objectiva sugeriu também o uso dee telescópio e do microscópio para uma maior abrangência dos pormenores macro e mcri- cósmicos daquela realidade!!!
Vamos ver…estão todos convidados para a vernissage (é assim que se escre esta p. Luis?)
do lançamento.
Luis, Gui, Falconito, 4 mil beijinhos de apreço e AMIZADE!!!Abaixo os Dantas!!!
Olá Carla Neto - ou será Carla Net?! - muito obrigado pelo convite. Ainda bem que encontraste um fotógrafo de características macro e micro que, em simultâneo, é sempre coisa difícil de encontrar. Quanto ao teu projecto, é sempre de louvar. Pelo que, quando for a tua festarola, lá estarei. Se puderes, convida a miss Breckinringe.
Beijos de volta
Luís e Gui