Estação do Calor
Documentário

Mês: March2008

Dia 64

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A janela do quarto estava aberta. Santiago entrava por ela, em luz, em ruído, no ar pesado e quente, nas múltiplas formas de nos acordar, como se não bastassem os decibéis do beliche de cima do meu, onde actuava um solista francês, à desgarrada com o “loverboy” alemão, que tem um estilo “sui generis”, oferecendo-nos largos momentos de doce silêncio, para irromper como um trovão apneico de grande intensidade técnica, desaparecendo em segundos com um estranho bater de boca e ranger de dentes.

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Dia 63

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O parque de campismo de Colbun ficou apenas com uma família residente, gozando em solidão as suas presenças. Os muitos cães selvagens que rondam o parque fizeram um repasto dos restos de frango congelado no churrasco, demonstrando habilidade felina a retirar o dito do lixo, supostamente inacessível à bicharada.

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Dia 62

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Foi como acordar num enorme pedaço de paraíso, tão intenso como se não fosse, emerso num pequeno retiro dos cerca de seis mil hectares que rodeia o lago Colbun, outrora o maior lago artificial de todo o Chile, construído entre 1980 e 1985 para fixar as águas do rio Maule, que desde então se dividem em três camadas funcionais(…)

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Dia 61

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Poucas mas boas, as horas de sono. Fomos acordados pelo silêncio, o que não tem preço. Na madrugada passada, quando chegámos ao Eden, pouco se via. De manhã, via-se porquê: Escolhemos o único sítio para colocar a tenda que tinha a lâmpada fundida. Mais espigão, menos espigão, a arquitectura da tenda estava em pleno e, como não é propriamente uma “carpa” feita para o calor, calor era o que tinha acumulado sob efeito de estufa.

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Dia 60

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Dois segundos para fechar a primeira pestana, um para a segunda, meia-hora para um sonho, em slide-show.
Francisco e Leonardo ainda não tinham dormido, razão pela qual se mantinham acordados quando a voz de Andreia, já endurecida de tanto repetir últimos avisos, rogava para que os resistentes desembarcassem imediatamente, antes que fossem tomadas medidas de evacuação do Evangelistas. Está bem Andreia, é só arrumar umas coisas, lavar as dentolas e evacuar à pressa, julgando que éramos os últimos. Em passo de corrida chegámos ao cais de desembarque de Puerto Montt, entrando numa pequena cabana, onde deveríamos recolher a chave do Falcon, que para nossa tranquilidade estava mesmo à porta e, aparentemente, intacto.

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Dia 59

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Dia 58

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Alto mar. Baixa manhã. Era ainda de madrugada, mas tinha já a certeza que ainda não era desta que conseguia tomar o pequeno-almoço. Ainda por cima já me tinha dito um francês, informação confirmada por um norueguês, reforçada por um agricultor do Quebec, normalmente muito exigente nas questões de ingestão matinal, reconfirmadíssima por um dos chilenos, companheiro de bunker, que tinha aproveitado para o experimentar antes de se ir deitar, dizendo maravilhas do pão, da manteiga chilena, que se distingue da argentina por ter sal, do próprio café, coisa que claramente não tinha chegado para lhe curar a excitação de uma dose incomensurável de pisco, que esta noite transformada em manhã lhe tinha reservado.

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Dia 57

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Pisco morning. Da mesma maneira que tínhamos acordado no dia anterior, acordámos nesta manhã, com a doce voz de Andreia, que profissionalmente antecipava um dia em cheio. Pelo menos a manhã, dizia ela. Portanto, todos para o comedor para a habitual conferência sobre o que dia ia ser. Já se estava a ver que deste bunker específico não ia haver muita colaboração. Até porque uma certa espanhola, aliás, muito simpática, assim que soou o altihablante, escapuliu-se sorrateiramente, julgava ela, da cama de baixo. Monsieur Pazat estava especialmente acordado e foi dar uma volta pelo perímetro reduzido do nosso “Love Boat”.

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Dia 56

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Oito da matina. Senhores passageiros, informava a energética Andreia, uma das animadoras de serviço, aos poderosos altifalantes a bordo do Evangelistas, era favor deslocar-se ao salão de “comedor”, para um briefing sobre a viagem e sobre todas as actividades de entretenimento no magnífico cargueiro turístico, que improvisa estas viagens durante o Verão e que já marchava a 12 nós.

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Dia 55

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Lá se foi o Jordi, aqui ficou o vazio, lá se foram os dólares, aqui vamos nós, moi e o françois, para uma nova etapa. Monsieur Pazat, péssimista-neo-realista-velho-do-restelista por natureza, não estava confiante no que Juan tinha feito para arranjar a caixa de velocidades do Falcon. E começou a manhã com premonições negativistas.

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