Dia 75
Diário de viagem

dia75_001.JPG

Tantas coisas para fazer e só uma manhã para fazê-las. O mais urgente primeiro: Mesmo antes de pagar o estaminé de estrela e meia, directos para o largo da igreja de San Pedro de Atacama, onde há uma feira permanente de artigos regionais. Ali se encontram roupas típicas, artesanato típico, condimentos típicos, típico típico, típico atípico e afins de típico. E, na banca de umas velhotas bolivianas, folha de coca para mascar. San Pedro de Atacama e Punta Arenas são dos dois locais mais inflaccionados do inflaccionado Chile, mas a folha de coca estava a bom preço. Sendo assim, como não sabíamos as provações que íamos passar em alta montanha, decidimos comprar umas cem gramas, o que dava para pôr um regimento a mascar. Logo de seguida fomos ao supermercado local comprar quinze litros de água e cinco doses de bolachas, meramente decorativas. Sabe-se lá porquê, não estávamos a contar ter muita fome.

dia75_002.jpg

Correcção: O ponto mais alto do Paso de Jama não fica a quatro mil e 800 metros, mas a quatro mil e 200, o que em nada retirava às opiniões que fomos recolhendo. Nem Oscar, o nosso artista local, que na noite passada se tinha despedido da namorada para viajar connosco, tinha admitido a possibilidade de seguir para a Bolívia através do Paso de Jama. Se chovesse, era certo que íamos ficar atolados. Se não chovesse, era igualmente certo que o carro não resistisse a mais de 300 quilómetros de estrada para lá de dura. A alternativa era seguir em direcção à fronteira argentina, a mais de 300 quilómetros. Ou seja, fôssemos para onde fôssemos, era boa ideia levar um bidão de gasolina. Gasolina, sabíamos onde havia, mas encontrar um bidão estava tão fácil como tropeçar numa vela nova em San Pedro de Atacama. Do meu périplo pedestre pela cidade, lembrei-me de uma loja onde havia de tudo e uma septuagenária simpática a atender. Também havia um canídeo minúsculo, de três patas, que a velha perseguia com um martelo quando chegámos ao seu estabelecimento. Era na brincadeira, tranquilizou a provecta. Mesmo que fosse a sério, o cão, ainda assim, tinha maior velocidade de ponta. O mais importante é que a senhora tinha um bidão de vinte litros que podia dispensar. E também tinha líquido anti-congelante e “aceite” denso para o motor. Mas que maravilha de estabelecimento. Só lhe faltava uma vela para ser perfeito. Mas agora não convinha pensar nisso.

dia75_003.JPG

Monsieur Pazat não estava convencido na opção Bolívia. Eu estava para aí virado, mas não tinha argumentos para dar substância à vontade. Pelo que seguimos para a fronteira, para mostrar o passaporte, os documentos do carro e recolher as últimas opiniões de quem conhecia bem o território. Nas proximidades aduaneiras, um boliviano optimista disse que era perfeitamente possível, desde que o terreno não estivesse enlameado. O truque era apanhar um camião que fosse para lá e ir atrás. Assim, quando o carro empanasse, pedíamos para ser rebocados. Quanto à gasolina - ou a falta dela - também não seria problema, que há sempre pessoal que passa de 4×4 para vender nafta aos distraídos pelo quádruplo do preço. Não era propriamente excitante. Outro boliviano, pura e simplesmente opinou com um gesto universal, colocando o indicador na zona parietal. O señor fronteiriço desatou a rir quando olhou para o carro. Por fim, quando a chave já estava na ignição e a papelada tratada, apareceu um chileno com nacionalidade argentina, que vivia na Bolívia, declarando-se profundo conhecedor das rutas e contra-rutas desta indecisão. Saindo da aduana, tínhamos de virar à esquerda. E depois tínhamos 50 quilómetros de subida para lá de íngreme, embora Jama propriamente dita ficasse a 150 quilómetros. Era o teste mais difícil para o 006, que estava atestado, com um bidão de 20 litros no assento traseiro, cheio de água, a abarrotar de “aceite” e líquido anti-congelante. Estava decidido: Não conseguiamos decidir. Lá em cima, logo se via. Somos portugueses, ou quê, franchotti? “Porrrtugueses”. Boa resposta.

dia75_004.JPG

E eis-nos na longa recta antes da longa subida para o Paso de Jama. Atenção, preparados: “Hoja” à boca. Toca a mascar, colocando as folhas de coca ao canto da boca, não as mastigando, apenas sugando o que elas têm de líquido. Ainda a boca não estava dormente quando avistámos um “ayuntamiento” de carabineros a meio da recta, que nos acenava efusivamente. Monsier Pazat engoliu a dose. Eu, que sou para lá de distraído, sai a mascar. Tanto nos tinham falado dos tenebrosos carabineros, ainda viciados em ditadura, ainda com os tiques de repressão, sempre prontos oprimir. Pois este triunvirato quis ver os documentos do carro, a minha carta de condução, quis falar sobre Portugal, quis saber sobre o Falcon, dizendo que modelos como este já não existem infelizmente no Chile. Infelizmente, neste caso, soou a doce para os nossos ouvidos. Não tínhamos nada a esconder, tirando as cem gramas de “hoja de coca”, assim como dois pacotes gigantes de “água de coca” (chá) que tínhamos igualmente comprado na feira. Os carabineros deram um mirone para a mala cheia do carro e mandaram fechá-la. Eram da opinião que o Falcon era carro para a subida que aí vinha e para muito mais, desde que não fosse na estrada para a Bolívia. E, na maior das boas-disposições, desejaram boa viagem e disseram que quando o carro avariasse era só telefonar para eles que eles iam lá a cima buscar-nos. Antes de sairmos, porém, algumas questões: Se tínhamos água? Sim. Se tínhamos líquido anti-congelante? Pois claro. Tínhamos suplemento de gasolina? Estava ali, coberta com uma toalha molhada, pois não abdicávamos de fumar os nosso cigarros. E coca, tínhamos? Bom… señor “carabinas”, se fosse nos states, usava já a 5ª emenda. “Hojas de coca, tienes?” Só as que estão na boca e as que estão ao meu lado. “Muy bueno para arriba”. Sim, mas aqui, a 2470 acima do nível do mar, também não se estava mal. Despedimo-nos todos a rir. Às gargalhadas. Vamos lá subir isto, Pazat? Pazat, nada disse, ocupado que estava a enfiar a segunda dose de “hojas”. “Vamos, pá!”, declarou finalmente.

dia75_005.JPG

A subir, a subir, a mascar, a mascar, a subir e a mascar, a mascar e a subir. O ambiente a bordo estava do melhor. A paisagem era apenas soberba, regulando a altitude tendo como ponto de referência o cume do vulcão Licancabur, a cinco mil 916 metros. O Falcon não denotava dificuldades de maior, só muito raramente exigindo a primeira velocidade, que neste caso é compatível com a de um tractor. Quando vimos o desvio para a Bolívia, o carro começou a hesitar, a soluçar, a pedir para parar, o que fizémos de imediato, assim que vimos qualquer coisa parecida com uma recta. Monsieur Pazat já me tinha perguntado por uma ou duas vezes se eu não estaria tonto, porque ele estava um bocadinho. Nadinha, Pazat. Estávamos precisamente no ponto mais alto. O radiador estava a grelhar, pelo que abrimos o capot e deitámos água em cima, deixando-o depois a arejar. Pazat, que andava aos tombos, ainda estava a adaptar-se à altitude. E quando tentou colocar a garrafa de novo no interior do carro, foi quando vi que a coisa estava grave: Abriu a porta, mas falhou o carro. A garrafa ficou no chão e ele julgava que a tinha posto dentro do carro. Pronto: Duas crianças e um Falcon em alta montanha. E se tentássemos fazer uma corrida? Ora gira lá sobre ti próprio a ver o que dá. Pazat estava nitidamente afectado, mas começava a gostar da sensação. Nunca pensei dizer isto, mas revelou-se uma espécie de “freak” da altitude, o franciú. E a prova é que se deitou no chão e desatou a rebolar. Depois levantou-se e caiu, claro. “Se houvesse champagne é que errraaa!!!!” Nem me digas nada, Pazat. Só então me lembrei: Havia tintol, que tínhamos comprado para situações de emergência, já que era tinto de pacote, marca Alomo. Recordámos a advertência dos mecânicos para não tocarmos em pisco ou vinho nas alturas. Por isso, como não tínhamos pisco, teve mesmo de ser um tinto, que ia muito bem com as “hojas”, para comemorar o facto de estarmos ali quando toda a gente dizia que não era possível, fazendo exactamente aquilo que nos disseram para não fazer. Ficamos ali cerca de uma hora, com alegria de meninos no intervalo da escola, a dar descanso ao carro e a desfrutar aquele sítio, ao lado do vulcão Licancabur, onde os incas faziam as suas cerimónias de adoração ao sol, tão perto que estavam dele no seu cume.

dia75_006.JPG

Entretanto, decidimos seguir para a Argentina, em, direcção à cidade de San Salvador de Jujuy, a 500 quilómetros exactos da cidade de San Pedro de Atacama. As montanhas alternavam com os imensos vales, as suas salinas eram mares brancos, como se fossem de farinha boliviana. Sempre nas alturas, sempre a mascar, o cansaço notava-se bem sempre que saíamos do carro para caminhar uns metros que fossem. A caminho da fronteira, lembrámo-nos de um pequeno detalhe: Aquele de não poder voltar a sair da Argentina com os documentos que tínhamos. A reentrada, em princípio, estava garantida.

dia75_007.JPG

Na fronteira do Paso de Jama. À travagem do Falcon, soltou-se uma densa nuvem de pó, mas nada de anormal no sítio, em si um só nuvem de pó. Por entre ela era possível distinguir um armazém, daqueles os carros são desmanchados peça por peça em busca de drogas. Não convém esquecer que por ali chega quem vem da Bolívia. Ora bem, passaporte em riste e vamos lá tratar do assunto, mascando a terapia. Tudo conforme, até chegar aos documentos do carro. O quê? Deixaram-nos sair da Argentina com aquela documentação? Yes, sir. Há quanto tempo? Há dois meses e tal. Mas quem? Assim de repente, não nos ocorria o nome do simpático funcionário, nem o da fronteira próxima de Rio Gallegos, nem o da que divide o Chile de Ushuaia. Tínhamos um problema. Tínhamos, señor aduaneiro? Só estávamos a ver um problema se fôssemos funcionários das fronteiras em questão. Que esperassemos lá fora junto ao carro, enquanto ele tratava de confirmar que nós tínhamos mesmo saído da Argentina naquelas fronteiras.

dia75_008.JPG

Meia-hora depois, saiu o funcionário com cara de poucos amigos, devolveu-nos os documentos e os passaportes e fomos todos para o carro. Chegaram entretanto, um militar com os costados em V, outro funcionário de colete Coronel Tapioca e um canito “esnifador”, excitadíssimo com os mil aromas que exalavam do Falcon. Tivémos de tirar tudo da mala. Foi tudo revistado. Pneus, mala, por baixo do carro, no motor e até no interior, onde nenhum dos funcionários arriscou ficar muito tempo. É claro que as “hojas” ou o chá de coca não incorrem em ilegalidade. Pronto, voltávamos a colocar tudo no sítio. E “hasta luego”, com a certeza que a ida à Bolívia teria de ser de autocarro. Toca de mascar rumo à cidade de San Salvador de Jujuy, de novo na Argentina. Chegámos por volta das 11 da noite, graças a um novo mecanismo para ligar as luzes, que envolve um tubo de cola-tudo, um palito, um elástico e lâmpadas que não estivessem fundidas. Foi uma questão de encontrar um hotel barato e com net. E ali aterrámos a mil e 300 metros de altitude. Coisa que sinceramente já não afectava. Provavelmente porque tínhamos a boca verde.

dia75_009.JPG

dia75_010.JPG

Anterior: Dia 74 | Seguinte: Dia 76

Comentários

17 respostas to “Dia 75”

  1. Patrícia on April 1st, 2008 2:04 pm

    Olá muchachos.
    Então a viagem “impossível” afinal correu bem. Fico contente. Saõ mesmo portugueses!!!!!
    Além disso, e como sempre, as fotos são liiiiindas, o texto é espeeeeeeeeectacular. A coca e a altitude também foram um bom contributo para a “viagem”. Pelos vistos fartaram-se de se divertir. “Moca” fixe. Não deve deve ser uma má experiência (dêem ideias ao pessoal!!!!).
    O problema é que ficaram com a boca como o Shrek.

    Besos e continuação de boa viagem. (cuidado com as folhinhas).

  2. Patrícia on April 1st, 2008 2:11 pm

    Ah! É verdade! Bom dia das mentiras para vocês!!!!

  3. Carla Neto on April 1st, 2008 2:13 pm

    Mr. Gui Pazat, que bem que se está na estrada…
    Já agora, o que são aquelas coisinhas vermelhas nos Lamas???São badalos ?

  4. Patrícia on April 1st, 2008 2:16 pm

    Muchos besos para o Falconito, foi muito corajoso.
    Esse carro vale uma fortuna!!! Que força!!!! Incrível!!!!

    Realmente também acho que o podiam trazer para Portugal e pô-lo num museu!!!!!

  5. Carla Neto on April 1st, 2008 2:16 pm

    PS:Luis e Gui, parece-me que têm andado a ler muito Vidal….mas isso não são leituras que se recomendem e, muito menos, que se divulguem…muito obrigada por me terem estragado a festa….Beijocas e bom regresso.
    Estou zangada e magoada…

  6. Carla Neto on April 1st, 2008 2:19 pm

    Ps2: e Mr. Pazat, parece-me que vamos ter de ter uma conversinha…alguém meteu a boca no trombone…e. eu ainda não me meti a minha…

  7. MC on April 1st, 2008 2:53 pm

    Boa tarde rapazes,
    tenho acompanhado a vossa viagem e tenho achado fantastica a forma como parecem conseguir superar todos os obstaculos (suponho que o pisco e agora a coca estejam a dar uma ajudinha…e o Falcon, claro!).
    Boa viagem e muita diversão
    Magda

  8. Carla Neto on April 1st, 2008 2:56 pm

    Ps3: BELAS e “ABRANGENTES”, as mãos da primeira foto…sim senhora, os nossos rapazes não brincam em serviço…5 estrelas e nota 20 ;)

  9. Apiko on April 1st, 2008 6:31 pm

    San Salvador de Jujuy:
    24º 10´ 60´´ S
    65º 17´ 60´´ O
    Altitud 1200 m.

    Queda de Buenos Aires 1650 Km
    e de La Paz (Bolivia) 1300 Km

    +/- Kms………………

    e donde se comenzó a deshacer mi querido 2CV…….

  10. Myra Gore on April 1st, 2008 6:56 pm

    Será que as mãos de hoje são uma alusão à de outro dia? Desejo inconfessado de possuir o Atacama? Ou apenas ou “detalhe” de um dos artristas?

  11. Estação de Calor on April 1st, 2008 10:37 pm

    Estação de Calor esteve momentaneamente indisponível, pedimos desculpa pelo incómodo.

  12. Carla Neto on April 1st, 2008 10:38 pm

    Senhor óscar de Brito, são lamas ou guanacos??!!
    A dúvida mantém-se!! ;)

  13. Estação de Calor on April 1st, 2008 10:41 pm

    Dia 76! Especial destaque, só fotos do Luis Pedro Cabral!

  14. Carla Neto on April 1st, 2008 10:42 pm

    Ps: Sr. Luís os meus parabéns pela sua vasta sabedoria, sapiência e inteligência!!!Isso não é para todos!!! E vivó pisco, carago!!!!
    LOVE YOU!!!

  15. Carla Neto on April 1st, 2008 10:49 pm

    Sr. Luis, também lhe quero agradecer a sua complacência e bondade face aos meus erros ortográficos…sou um bocado calina, mas, numa escala alargada, boa pessoa, dentro do possível…
    o senhor é IMPECÁVEL…difícil acreditar que ainda haja pessoas assim..qualquer outro já me teria mandado bugiar….mais uma vez, um grande BEM HAJA!!!CARAGO!!

  16. Carla Neto on April 2nd, 2008 12:01 am

    Ps Sr. Luis: e se a coisa com o fotógrafo de Bilbao se compuser À MANEIRA (assim o espero de tão jeitoso que ele é..) o Luís será o Padrinho por excelência da cerimónia!!!!Torça por mim, que já vou a caminho ter com o moço!!!!Obrigada AMIGO!!!(desculpe a ousadia)!!!

  17. AR on April 2nd, 2008 10:13 am

    Aqui está o que chama a verdadeira TRIP AO QUADRADO…
    Óptimas fotos Luís e belo texto, aliás, como sempre!
    Bem hajam!

Escreva um comentário




Anterior: Dia 74 | Seguinte: Dia 76

Entradas Relacionadas Diário de viagem

Apoios
© 2008 Estação do Calor, fotografia e textos | website produzido e mantido por nelson d'aires