Agora que estamos onde não estamos, tendo tempo exÃguo para estar, estejamos por uma vez exactamente no ponto onde deixámos de estar, tão focados, tão centrados, cruzando alegorias, figuras de estilo, agudas, graves, proparoxÃtonas, verdes, amarelas, azuis, baças, como as vidraças da nossa pensão-hotel-hostel-residencial em San Salvador de Jujuy, ilusoriamente rachadas de chuva, que caia a destempo lá fora, ponto de desencontro do nosso “desayuno”. Passava-se tudo lá fora. E nós cá dentro. Havia desagrado lá fora. E nós cá dentro. Haviam manifestações lá fora. E nós cá dentro. Estava a Argentina lá fora. E nós cá dentro, a sorver leche e café, reclinados num cansaço que nem sequer faz sentido. E acaba-se aqui o plural.
Não estou assim tão cansado. Senti só o corpo dormente. Se calhar não está tão dormente como as centenas de manifestantes que dormiram numa tenda em frente à praça do governo provincial, pedindo algo melhor, desconfiando que, tão cedo, não haviam de ter o que pedem. Tão burguês me senti, tranquilo na minha cadeira, pronto a pagar qualquer coisa que achava barato, sabendo que a Argentina, desculpem, os argentinos, sabem que custa caro. Estava no ponto confortável da assimetria. Pessoas passavam, genuÃnas, fortes, reclamando direitos. E eu, que não tenho poder de conferir, não aguentei mais lá dentro. Foi a alma que me chamou. Foi ela que me disse que esta viagem, mesmo na vertigem do fim, não era viagem nenhuma se não acompanhasse estes argentinos na sua marcha, marchando com eles, mesmo sem saber exactamente porque marchavam, tendo a certeza que marchavam por algo justo. Foi como se naquele instante tivesse regressado a Portugal, à s suas idiossincrassias, e não as bebesse, como um café com leche global, aqui representado nas suas caracterÃsticas regionais, sempre nacionais. Eram professores, alunos, agricultores, mães e pais e filhos, tudo, qualquer que fosse a sua função pública. Eram pessoas que passavam. E não haviam de passar por nada.É óbvio. É isso que é uma viagem. Não é ver os sÃtios, não é passar pelas pessoas sem receber a sua marca, os seus pontos, a sua latitude, não é não estar. E também não é por estar tempo de mais que estamos. Muitas vezes, tantas vezes, é só estar. É só encontrar aquele Ãnfimo, aquela ponta de partÃcula, aquele lugar onde estranhos se conseguem encontrar, nunca mais se encontrando. Isso, é viajar. Não é ser profissional do olhar. É, simplesmente, sentir. As pessoas, as coisas, a sua relação, a expressão, como apertam, como abraçam, como fazem o contrário e porquê. O inverso é certo. E certo é o inverso. E se nisso não houver confluência é porque nenhum dos inversos é certo, tão certo como o inverso que isso é.
Jujuy é, portanto, uma espécie de regresso ao ponto de partida onde nunca estive, ponto do qual hei-de regressar. E, nesse ponto onde regressei, parti para o ponto onde estou, exactamente onde estava antes de partir. E mentia se não estivesse a viajar neste momento. E não quero mentir. Quero só chegar. Quero só partir. É por isso que estou onde estava: Em Jujuy, onde estive um certo dia da minha vida, só mais um dia na vida dos que passavam. Tenho a impressão que percebo a curvatura do tempo, a lógica da imprecisão. Sinto que a soma de três mais dois são seis. Sinto-me como se não estivesse cá, onde não estou. E, sinto-me lá, precisamente onde estou. Não sei o que engrandece a viagem, mas sei que engrandece. Não há outra forma de termos escala adequada do nós que nós somos, bilhetes de ida e volta, anões do mundo, julgando sempre que nos é dada a oportunidade, julgando-nos oportunidade sempre que é nosso o julgamento. Não somos mais. E não somos menos. Somos só a nossa capacidade de ser enquanto estamos onde estamos. Viajar é viajar é viajar é viajar. É liberdade, é pensar. E, para isso, nem sempre é necessário sair. É só preciso saber estar sem nunca estar. É só preciso nunca ficar, como faziam os que marchavam em Jujuy, em direcção à carga policial lá ao fundo.
Lá ao fundo, a rua cercava-nos. Agitavam-se bandeiras, acendiam-se tochas, soavam os bombos, como se a equipa local tivesse ganho o campeonato nacional. Nem por sombras. Todos os que marchavam tinham perdido alguma coisa. Todos os que marchavam, marchavam. Tinham o que era preciso. Têm. Têm tudo o que não têm os olhos estáticos que os vêem passar. Já não estava ali. Estava lá, com eles, passeando-me onde eles caminhavam, julgando que sabia, não sabendo. Gritava-se pelo que alguns de nós damos de barato. Saà de um paÃs pretensamente rico, com inflacção a comprová-lo e um ditador defunto a habitar o pesadelo de gerações e gerações, para aterrar no pesadelo desta geração, que marchava para a geração que não quer ser. Viajando, portanto. Tomando pela força os seus bilhetes para a viagem, reclamando-os nas ruas sombrias da sua administração.
Nesse dia, que havia de ser longo, a marcha foi imparável, os gritos ouviram-se, o cordão de gente uniu-se e passou sem poder que o parasse. Durante um dia inteiro San Salvador de Jujuy foi percorrido por esta força imensa, que havia de ser nacional, havia de cortar as estradas principais, havia de chegar à s ruas de Buenos Aires, junto à Casa Rosada, onde dorme quem não escuta, tantas vezes uma tradição argentina. Ao cair da noite, ninguém desarmava. Esta manifestação foi também uma demonstração de vitalidade do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, embora a sua génese - a maior revolta indÃgena da história do Peru e dos incas e das nações da América do Sul, contra o invasor espanhol - não estivesse nas ruas de Jujuy. O movimento Tupac Amaru tem hoje em dia outra dimensão e outra função social. A polÃcia de choque argentina sabe disso, mas também sabia que era o momento de avançar sobre os manifestantes, que agora erguiam tochas de fogo. Na massa uniforme, houve hesitações. E quando a polÃcia carregou, o grupo desagregou, à s voltas sobre si, sem saber muito bem para onde correr com as crianças ao colo. Correram para onde havia espaço, tropeçando, caindo, fugindo, ofegando, reagrupando mais tarde na praça do municÃpio. E, entre as centenas que ali permaneciam, sob o olhar atento da polÃcia, gerou-se um estranho silêncio, um murmúrio grosso, recobrando forças para mais uma noite ao relento.Nós, no dia seguinte, tÃnhamos de apanhar à s quatro da manhã um autocarro para La Quiaca, cidade fronteiriça com a BolÃvia. TerÃamos de atravessar a fronteira a pé e só depois apanhar mais um autocarro, ainda não sabÃamos bem para onde, mas havÃamos de decidir quando lá chegássemos. No terminal de autocarros de Jujuy comprámos os bilhetes. No regresso, as ruas tinham regressado à normalidade. Mera ilusão. Nessa noite, um jornalista argentino foi assassinado à porta de sua casa, em San Salvador de Jujuy. Esta Argentina fronteiriça, com tantos destinos e tanta mescla, pintou a sua noite de luto. Na praça do municÃpio, crescia esse silêncio. E, nesse silêncio, havia revolta. Nesse silêncio, como numa viagem, a distância nunca é longa, apenas curto o regresso.
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LUIS, QUE FOTOS AGUERRIDAS, VIVA LA REVOLUCIÓN, ME HACEN RECORDAR OTRO “VERANO CALIENTE”.
UN FOTÓGRAFO “ANGAJÉ” CON LA REALIDADE SOCIAL QUE LO
RODEA!
Ahora voy a leer el texto del dia………..
Viajar é também ser solidário, desenganem-se aqueles que julgam que o viajante é um solitário.
Parabéns pelo texto que me fez estar onde ainda não estive, mas onde se calhar estou…
Um abraço e continuem!!!
Que texto tão lindo LuÃs!!!!! E as fotos também.
Viajar é mesmo algo enriquecedor, especialmente e, como dizes, pelas pessoas que conhecemos e que nos dão algo delas e que nunca mais vêmos. Acho engraçado falares nisso, porque é um pensamento que tenho recorrentemente. Parabéns LuÃs consegues expressar em palavras aquilo que eu sinto e que provavelmente muita gente sente.
Besos para vosotros muchachos. Buen viaje de autobus.
(Falconito vai descansar um dia!!!!)
1 MINUTO DE SILENCIO POR EL DESCONOCIDO ASESINADO…
Quel texte tres emouvantet quelles photos magnifiques.J’adhere completement a ta conception du voyage.
Quel texte magnifique,quelles photos superbes!!Merci de relater cette manifestation .Quelle tristesse pour ce journaliste argentin assassine alors qu’il faisait, sans doute, tout simplement son travail..au nom de la liberte d’expression!!!
Diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras. Hoje, após ler este maravilhoso texto do LuÃs, digo que em cada uma destas palavras foi possÃvel ver mil imagens. Senti através delas, vi através delas, senti o odor das ruas e das pessoas através delas, ouvi as vozes através delas e também através delas senti o paladar doce e amargo que elas me troxeram.
Viajar é poder absorver outras realidades, mas sentir quando se viaja é poder viver em sitonia essas mesmas realidades. É fazer parte dessa realidade! É poder contar história e não estórias.
E mais uma vez é inevitável realçar… o grandioso trabalho de equipa que têm feito.
MUITOS PARABÉNS… MESMO!
AR
AR
Um dos mais belos diários desta vossa odisseia !
Parabéns LuÃs pelo texto e pelas fotos!
Que GRANDE CORAÇÃO o teu, que ALMA!!!
Muy bueno!
Falta pouco?
Só para dizer que estou aqui!!!
Olá!! E eu também
Já somos dois

Ps: Parabéns pelo EXCELENTE trabalho de hoje!!!
O sentido cÃvico da “Globalização” também passa pelos que (ocasionalmente) estão onde se desenrola a luta social, e dela não fogem.
Parabens pela entre-ajuda interclassista internacional de que fizeram parte involutariamente. Revela Alma de Gente e Coração de Guerreiro de causas.
Gui, simplement merveilleux.
Bem hajam.
Então somos muitos!!!
beijinhos
que texto,don luigi,que texto.
de dar inveja com gotinhas!!
as fotos tambem estao demais!!
beijos muitos.
mg.
A riqueza de uma viagem, qualquer que seja, mede-se essencialmente pelo que os outros, por quem passámos, deixam em nós, e pelo que de nós levam…
Como diria Sain-Exupery “Há os que levam muito, mas há os que não levam nada; há os que deixam muito, mas há os que não deixam nada.”
Compete-nos a nós fazer a nossa parte, e dar. Assim, temos sempre a certeza de também receber.
O LuÃs tem um coração enorme, e deixa-o espalhado por onde passa. A nós, que o vemos/lemos à distância, resta-nos agradecer-lhe pelos pequenos pedaços de coração que nos deixa.
Obrigado
Gabi, grande és. E, mais importante, sabes como és grande e porquê. E à s vezes parece que não sabes e sabes tão bem. Há sempre graus a separar toda a gente, disseste tu uma vez. Não sei quantos graus nos separam, mas sei os poucos que nos unem. Bom saber que estás aÃ.
Beijo grande do teu amigo.
LuÃs
pelo menos

e ainda
