Dia 77
Diário de viagem

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Pelo óbvio da razão, noite mal dormida. Afinal, o autobus para a cidade de La Quiaca, ainda Argentina, não era às quatro, mas às sete da manhã. Para variar, uma boa notícia. Não eram propriamente mais horas de sono, mas ao menos eram horas de cama. Às seis e tal San Salvador de Jujuy ainda estava adormecida, assim como estavam os cartazes e os manifestantes, dentro das suas tendas de campismo, junto à praça onde fica a autoridade provincial, a caminho para a estação de autocarros, esta sim, a fervilhar de gente atarefada, com sítio para ir e horários para cumprir, uns sentados a espreguiçar a noite, outros de pé a deixar escapar o sono por entre os dedos que tapavam a boca aberta, outros enfiando os últimos pedaços de “desayuno”, outros de olho nas suas malas enormes, outros a equilibrar mochilas de viagem, retro e frontal. Os jornais davam conta da jornada de protesto, manifestando luto pesado pela morte do jornalista, embora ainda estejam por clarificar as razões da sua morte. Desconfio que vão ficar por clarificar ainda muito tempo, mesmo que um dos seus carrascos tenha sido capturado horas depois. Juan Carlos Zambrano era jornalista na Rádio LM8 e no Canal 7, de televisão, tinha 46 anos e estava a chegar a casa, na companhia da sua mulher, que assistiu à sua execução à queima-roupa, portanto, ao seu lado, amparando-o até ao fim, que se verificou segundos depois de um tiro na nuca, exactamente como fazem os cobardes, amadores ou profissionais.

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Não é por ter sido um jornalista, porque profissão nenhuma está acima de um homem. Seria, por isso, uma parte ínfima da estatística dizer que outros três jornalistas ficaram feridos na manifestação, colhidos por balas, estas de borracha, e um representante do sindicato argentino dos professores do secundário, colhido pela fúria caceteira dos funcionários da autoridade. O número de manifestantes que sangrou correspondia vagamente ao seu estatuto anónimo. Era uma espécie de inexistência. Ou seja, imprecisão. Juan Zambrano morreu. E é por isso. É por ter sido um assassinato. É por ter sido algo que aconteceu, simplesmente porque pode, nesta Argentina democrática, tão democrática como a democracia representativa norte-americana, tão sul-americana como as outras, tão de leste europeu, tão europeia como as da nossa Europa. O podre está aqui, no imenso aqui. E, sendo assim, não é uma ferida argentina, mas uma doença global, no sentido apátrida do termo.

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O método nem sequer é inovador, não tivesse anos o protesto das Mães da Praça de Maio: Balas para matar, matar para calar, balas para propagar a política do silêncio, “real politik” de calibre 38 para atordoar os que pensam, corpo morto e autopsiado, corpo morto e chorado, corpo morto e enterrado, notícia de dois dias, efeméride, esquecimento perpétuo que há-de ser. Que fazer? “Por supuesto” apanhar um autocarro para a Bolívia, onde a vida também não tem grande cotação.

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No dia anterior tínhamos combinado com o dono da residencial deixar ficar ali o Falcon por uns dias. Claro, a troco de pesos. As ruas de Jujuy não estavam propriamente para deixar viaturas estacionadas, quanto mais não fosse porque a polícia, quando não estava ocupada a reprimir, ocupava-se a multar. Por sorte, calhou-nos na rifa os melhores lugares do autocarro, na primeira fila do primeiro andar, com vista panorâmica para as quatro horas e tal de viagem, que neste caso tínhamos pela frente. As energias não estavam em pleno, instalada que estava uma enorme ressaca de um estranho nada, azedando a disposição, açoitando de mil maneiras o pensamento, cinzento como o tempo lá fora. Como não há interruptor para estados de alma, decidi ser transportado, vendo cinematograficamente o filme inédito que havia de chegar, depois dos primeiros quilómetros terem transposto a parte que fizémos de carro dias antes, ao chegar a San Salvador de Jujuy. A banda sonora, estava no meu poder escolher: Radiohead? Apropriadamente, Karma Police? Não. Tricky. A violência que tem na voz telepatiza qualquer coisa de tranquilo. E desliguei-me.

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Ao meu lado direito, monsieur Pazat. Ao lado direito de monsieur Pazat, uma senhor de meia-idade, ou lá o que é isso, com um terço que agarrava com as duas mãos, depois de assinalar no peito uma cruz invisível, olhando para o alto, como se visse para lá do tecto platinado do autobus, rezando para lá, como se estivesse a fazer “playback” do Tricky, pedindo certamente protecção. Por mim, tudo bem, desde que não fosse policial. Desde que não me arrancassem os “headphones”, desde que não me tirassem as folhas de coca do canto esquerdo, desde que não me afastassem a bochecha do mesmo lado da janela, desde que não retirassem os meus pés da parte da frente, desde que não me obrigassem a dizer uma palavra, desde que não me obrigassem a escutar o mundo dos outros, desde que não me arrancassem abruptamente do meu.

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“Frame by frame”, a paisagem foi mudando. “Frame by frame”, fiz as pazes com a Argentina. Primeiro uma vegetação abundante que tornava a estrada estreita, depois as montanhas, as rochas, uma doce e longa desolação, montanhas de novo, planícies de novo, retrospectiva de Patagónia, imensidão. De vez em quando o autocarro estacionava em pequenos pueblos, para largar passageiros, para receber outros. O homem do terço, que depois de umas três horas de viagem ainda não o tinha largado, largava-o agora para utilizar tecnologia terrena: Um telemóvel, com certeza para anunciar a quem interessasse que tinha chegado. Não posso dizer com exactidão, que não estava para ler lábios e tinha o volume no oito, escala de dez.

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Chegámos a La Quiaca, coisa diferente de chegámos finalmente a La Quiaca. Não gosto especialmente de autocarros, mas estava a gostar de estar neste. E foi com dificuldade que retirei os bloqueadores de gente, para nela aterrar. Era exactamente como se me viessem informar que o IVA baixou em Portugal, que em Portugal não se fala noutra coisa se não numa aluna do Porto que gostava muito do seu telemóvel, que os portugueses estão a pagar mais pelos serviços de saúde, que provavelmente a taxa de desemprego voltou a subir, que o Paulo Bento deu mais uma conferência de imprensa com o risco capilar a três quartos, que o apito continua dourado, enfim… todas aquelas coisas que mudam irreversivelmente a vida dos portugueses à hora do Telejornal se não houver transmissão directa de um jogo de futebol.

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La Quiaca é a última paragem. Ou a primeira, para quem chega da Bolívia. É uma cidade onde os argentinos são bolivianos e os bolivianos argentinos. É uma cidade de bancas de venda, que tem um jardim municipal onde acampa gente e uma estação de serviço, que fica na avenida para a fronteira, de onde vem e para onde vai uma procissão de passaportes. Porque não somos bolivianos temos direito a passar à frente de todos os bolivianos que esperavam para reentrar no seu país. E, como não somos norte-americanos, temos direito a entrar sem ter de pagar 150 dólares e sem ter de apresentar um sem-fim de documentação, resposta à letra às leis aduaneiras norte-americanas. Em coisa de meia-hora estávamos em Villazon, a cidade boliviana, do outro lado. E eis-nos noutro mundo, como se tivéssemos acabado de entrar na Feira do Relógio ou na Feira da Ladra dos preços baixos, ultra-lojas dos 300, analisando bem o câmbio para “bolivianos”, moeda boliviana. Passando essa avenida de bancas e de pó, um jardim, onde “gamaram” com grande mestria a camisola do Pazat, onde passeavam mini-bolivianos em fatiotas colegiais, macro-bolivianas com as suas saias, os seus chapéus de côco típicos, as suas feições indígenas e orgulhosas disso, o seu olhar diferente, desconfiado e, lá ao fundo, uma doçura. Toca comprar os bilhetes. Mas para onde? Para Tupiza, a cinco horas de distância, coisa intraduzível em quilometragem. Tupiza seria, quatro horas depois, a bordo de um autocarro que era mais uma autocaravana, a cair de podre, como a maior parte da dentição da esmagadora maioria dos passageiros, que sorriam e riam e desatavam às gargalhadas por nada e por tudo. Era um grupo polivalente de mascadores de coca que ali se tinha juntado. E, para nossa desgraça, gringos do caraças, tinham-se acabado as cem gramas que comprámos em San Pedro de Atacama. Foi aqui que conseguimos dormir. Quando acordei, estava com a cabeça presa ao corpo, a meio do corredor do autocarro, com meia-dúzia de bolivianos a rir. E, a rir, acordei em Tupiza, julgando que ainda estava a meio do caminho.

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Mal chegámos, fomos directos ao comércio local, onde comprámos mais cem gramas de folha de coca, numa velhota que mascava do que vendia, o que é sempre bom sinal. Em euros, gastámos cerca de cinquenta cêntimos. Logo de seguida arranjámos um “estaminé”, para o qual tínhamos de comprar tudo o que era necessário, papel higiénico incluído, que nos ia custar por dia módicos três euros, depois fomos jantar num restaurante atestado de fotos do James Dean, bebemos meia-dúzia de Huari, cerveja boliviana e mascámos de volta ao quarto. Para dormir o que faltava dormir. A “hoja” não estava a ajudar.

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Comentários

11 respostas to “Dia 77”

  1. luis on April 3rd, 2008 12:20 pm

    No comments!!!!

  2. Carla Neto on April 3rd, 2008 12:38 pm

    Sim, sim…acho que ainda estamos todos na ressaca da orgia de emoções de ontem…
    Bem, vocês devem estar a vir pelo que está na hora das encomendas, eu fico-me por 6 garrafas de Pisco-tamanho familiar e 3 kg de folha de coca, purificada…também gostava de ficar com uma relíquia do Falconito…para ser sincera acho que lhe criei mesmo carinho…

  3. gabi on April 3rd, 2008 12:39 pm

    sempre perto,don luigi,sempre.
    com saudade e cheia de admiracao!
    que a vida lhe sorria todos os dias.
    e ao franchoto.
    que beleza em tudo e apesar de!
    pinto aih num fim de semana desses,hein??!!
    me aguarde.
    muitos beijos e parabens outra vez.
    sua
    mg.

  4. Apiko on April 3rd, 2008 1:29 pm

    TANTA COCA, TANTA COCA……..SE LES VÁN A CAER LOS DIENTES DE TANTO MASCAR!!!

  5. luis on April 3rd, 2008 1:59 pm

    Já cairam!!!! Sorriso aberto.

  6. cyberannie on April 3rd, 2008 2:33 pm

    Juan Carlos Zambrano n’est plus :les versions contreversees de sa mort sont edifiantes: sur le site de Reporters sans frontieres…
    Le récit que tu en fais, Luis,m’a vraiment émue
    Pour ne pas rester sur une note triste…j’espére que les feuilles de coca n’ont pas d’effet nocif::::
    bisous

  7. Carla Neto on April 3rd, 2008 2:40 pm

    ;) ;) ;) ;) ;) ;) ;) também queremos pisco!!!

  8. AR on April 3rd, 2008 6:04 pm

    “O que a luz do sol é para as flores,
    são os sorrisos para a humanidade”(JA) e a amizade para quem a conhece. Quando é daquelas…, daquelas que já há pouco… mas que ainda há,”não há longe nem distância”(RB)
    AR

  9. Fátima Cunha on April 4th, 2008 11:28 am

    “Últimos capítulos
    hora da despedida
    desta doce viagem
    que valeu uma vida”

  10. tomas de brito on April 5th, 2008 12:13 pm

    Los sigo acompañando en el viaje desde Rada tilly.
    UNA EXPERIENCIA INOLVIDABLE

    Oscar

  11. luis on April 5th, 2008 12:47 pm

    Gracias Oscar, pelo teu apoio.

    Um abraço

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