Dia 78
Diário de viagem

dia78_01.JPG

Sono interrompido por uma versão sul-americana de Julio Iglesias, el “forever young”, aqui adaptado a ritmo de cumbia, com a voz secundada pela matrona da residencial, que estava na cozinha, mesmo em frente ao nosso quarto de rés-do-chão, a preparar alegremente o almoço para a família. Monsieur Pazat não gostou do tema e assobiou. Em vão. A senhora dona dona, subia com a canção, do tom à escala, entrando em apoteose naquele momento no qual o refrão se torna interminável. Agora que estamos acordados e com o aparelho audivo em melodia, que tal fazer algo excitante, que vá bem com as folhitas de pequeno-almoço, sabendo que na residencial isso não era possível. Que tal alugar uma bicicleta e andar por aí a pedalar como se fôssemos putos em idade escolar ou belgas geriátricos em férias? O Gui nem se mexeu. Ainda bem. Realmente não era grande ideia dar ao pedal. Podia ser que nos fizesse mal, que não estamos habituados. Já sei: Horse riding no wild west boliviano, pá? Não és amigo dos cavalinhos? Não queres ser o Gary Grant da Normandia, a cruzar as longas avenidas da wilderness aqui ao lado? Pazat não é da Normandia. Nem ele me perdoava se não fizesse este esclarecimento, já que tinha acabado de carregar num botão sensível. E ainda não tinha abordado o processo através do qual se chega ao “foie gras”. Ser normando, tirando os normandos, é coisa que aparentemente nenhum francês quer ser. “Deves estarrr a passarrr-te Luís!” Vá lá, se quiseres acho que podes chicotear o animal… Nada. Não me digas que queres ir de jipe para Wañusca, que fica a mais de cinco horas, a armar aos cucos com uma viatura todo-o-terreno, quando deixaste o nosso menino, só e sem água no radiador, debaixo de um telheiro que quase vinha abaixo quando lhe batemos de traseira ao estacionar? Responde a isto, s.f.f. “Passa parrra cá as folhas, pá!”. Não. Só se formos a San Vicente, a 4200 metros acima do mar, para ver as supostas campas de Butch Cassady e do inseparável Sundance Kid. Sim ou sopas, franchotti?

dia78_02.JPG

Não me digas que não sabias que foi em Tupiza que os lendários “outlaw” passaram os seus últimos dias? Por favor, diz-me que sabes que o banco de Tupiza foi assaltado por esta dupla, que acabou por imortalizar Paul Newman e Robert Redford, antes, muito antes, deste último nos ter pregado uma seca de mais de duas horas a encantar cavalos, a segredar coisas estranhíssimas aos animais, que agora não vou repetir, Pazat. Estás a ouvir, Pazat? Pazat. Bom-dia. Queres que te cante uma canção do Julio Iglesias? Não sei porquê, há uma que não me sai da cabeça. Pazat, queres apostar que há uma pizzaria com o nome da cidade? Pazat, achas que hoje vais tomar duche? Pazat, gostas de ter os pés pretos? Pazat, se fosses francesa tiravas os pêlos das axilas? E o buço, Pazat? Acharias inestético? Marcarias assim a tua posição no ilusório mundo macho, mesmo à custa de comichões nas cavidades nasais? Pazat, sabias que quando fazemos a barba vão à viola pelo menos dois milhões de unidades de pelosidade? Pazat, sabes porque é que a malta do CDS-PP usa aquelas franjas e os pullovers às costas e calças vermelhas com sapatos de vela? Pazat, sabias que o Paulo Portas gosta de fotocopiar? Estás consciente que a capital do estado de Nova Iorque é Albany? Sabias que a luta pela independência da Bolívia começou em 1809? Sabias que a Bolívia só proclamou a independência em 1825? Sabias que Pushkin, o grande poeta russo, esteve apaixonado por uma portuguesa? Quando é que é a Volta à França? Quantos pontos percentuais de popularidade já perdeu o Sarkozy? Conheces melhor maneira de perder pontos percentuais? Quantas pastilhas para a garganta achas que toma por mês um pastor da IURD? Qual foi a primeira vez que ouviste Xutos & Pontapés? Ainda aguentas aquela conversa sobre a luz de Lisboa? Já pensaste que “micro” e “soft” pode conter informação subliminar e dizer mais sobre o Bill Gates do que se pensa? Conheces pessoas que dizem que o seu maior defeito é ser perfeccionista? Sabias que o Evo Morales tem uma assessora de imagem? Sabes que no Vietname as mulheres fogem do sol e usam collants e meias e luvas reflectoras e máscaras de cirurgião? Sabias que português em vietnamita é Bo Da Nha? Sabias que o Bush recebe o Dalai Lama e o Cavaco Silva não é capaz de fazer o mesmo? Pazat, sabias que em certas confeitarias do Porto ainda se vendem “bombocas”? Pazat, sabes o que são “bombocas”? Sabias que o cão do Nixon se chamava Checkers? Pazat, sabias que Tupiza foi em tempos um centro mineiro da Bolívia, mas que não resistiu à grande depressão dos anos 80? Então não é que o Butch franciú tinha adormecido e, não só isso, estava a apneiar de nariz para o tecto. O próprio Redford não faria melhor. Bom… sendo assim vou almoçar. “Esperrra aí que eu também vou”. Extraordinário.

dia78_03.JPG

Tupiza, sobretudo pelos habitantes de Tupiza, é considerada a “jóia da Bolívia”. E não deixa de ser, pois sobre ela há um anel montanhoso que a protege de tudo o que vigora nas grandes cidades, com expoente na sua capital, La Paz, la antítese. É uma cidade pacífica, onde todos se cumprimentam à passagem, onde os turistas pousam as coisas e vão aos “baños” e encontram-nas no caminho de volta. Num largo da cidade, que não é o principal, há rapaziada jogar “snooker” ao ar-livre em mesas minúsculas. O comércio é todo pequeno comércio. Só parece grande quando se atravessa a feira, que tem bancadas sobre bancadas onde se vende de tudo, de transistores a pilhas, os bons dos CD´s piratas, as coloridas roupas de criança, a roupa típica e indígena que as indígenas mais velhas não dispensam, a roupa “pós-moderna” de “griffe” duvidosa que as adolescentes procuram, as capas para os telemóveis, as ferramentas para os homens, as frutas, a folha de coca, os condimentos, as especiarias, a carne, material em enésima mão para os carros velhos que compõem o parque automóvel de Tupiza, não contabilizável em emissões, como se alguém quisesse tratar dessa contabilidade, como se nós estivéssemos em condições de abordar esse tema, depois de mais de dez mil quilómetros a bordo do nosso Falcon. Depois do almoço, foi uma tarde lânguida, vagarosa, passeando, convivendo, aprendendo, deixando que a noite chegasse da mesma maneira. À noite, Tupiza ganha outra vida. E as famílias saem à rua, para acenar às pessoas a que tinham acenado ontem, a quem hão-de acenar amanhã. Sentámo-nos num banco de jardim, como toda a gente fazia, deixando-nos estar a assistir a este desfile pacífico de pessoas tranquilas, com outra noção de tempo e de espaço. Se lhes perguntarmos, como perguntámos, os novos sonham em sair e os velhos nada mais querem se não ficar nesta amostra de Bolívia, longe de uma Bolívia muito maior.

dia78_04.JPG

dia78_05.JPG

dia78_06.JPG

dia78_07.JPG

Anterior: Dia 77 | Seguinte: Dia 79

Comentários

6 respostas to “Dia 78”

  1. apiko on April 5th, 2008 2:38 pm

    TUTTO IL MONDO É PAESE!

    Luis, a propósito de “bombocas” te olvidaste de decir que hay un perrito de nombre “bomboca”…
    y no es el de Bush!

    Abrazo grande para los dos y un buen fin de semana en el ombligo del mundo.

    Nauremi naki

  2. luis on April 5th, 2008 3:28 pm

    Mil desculpas ao respectivo canídeo categorizadíssimo e premiado.

    Abraço

  3. cyberannie on April 5th, 2008 3:35 pm

    Le “far west”bolivien.
    “Butch Cassidy and the Sundance Kid” film de 1969,si ma mémoire est bonne…..

    Sur la premiére photo, on s’y croirait
    bisous á tous les deux

  4. tcarlos on April 6th, 2008 4:42 pm

    O admiravel mundo do “dolce fare niente”, misturado com a pacificação mundial depois dos “tumultos” de Jujuy. Vocês estão a liderar na descberta do Mundo, e de todos os seus contrastes.
    Bem sei que não era possivel, mas … Volta Falcon!!!!!!! Te queremos muchisímo, de corazón!!!

    Bem hajam.

  5. Carla Neto on April 7th, 2008 11:22 am

    Hey Gui-Gui, nada como a perspectiva de um bom almoço!!!E ainda para mais com um irrecusável convite do Luís! ;)

  6. Apiko on April 7th, 2008 4:59 pm

    Buenas tardes, muchachos.

    Pazat, me gusta mucho tu fotografia del peluquero, me recuerda uno de Coimbra de hace muchos años atrás.

    Cual és la próxima estación?

Escreva um comentário




Anterior: Dia 77 | Seguinte: Dia 79

Entradas Relacionadas Diário de viagem

Apoios
© 2008 Estação do Calor, fotografia e textos | website produzido e mantido por nelson d'aires