Dia 79
Diário de viagem

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“Si, señora, salimos hoy”. Sim senhora, saímos hoje de Tupiza. Mas era provável que hoje fosse só amanhã. O autocarro era só às quatro da manhã. De modo que tínhamos o dia inteiro para continuar esta inefável terefa de não fazer pêva. Esperava-nos mais um daqueles dias em que as coisas não precisam de ser feitas. Não interessa bem a maneira como não se faz, porque isso é tão importante como qualquer coisa que se faça. E, naquele momento, não nos ocorria coisa melhor para fazer do que conhecer a população de Tupiza, que só muito raramente não tem algo para vender ou para comprar. Neste recanto da Bolívia, os sorrisos são de graça. A cidade está apinhada de turistas, que enchem os albergues de juventude de uma juventude de mochila às costas que chega ou vai para a Argentina. De manhã começa-se a ver chegar magníficos exemplares de “camionetas” (carripetas de caixa aberta) com cilindradas astronómicas, carregadas de tudo quanto é suportável em altura, com a carga atada por cordas instáveis, com a elasticidade apropriada para as crateras na estrada. À cidade chegavam autocarros cheios de nativos mascantes e de narizes estrangeiros, munidos de mapas de região e informação sobre Tupiza.

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Não há, porém, informação disponível sobre um estranho fenómeno que ocorre em Tupiza, que só se tornou claro à tarde, quando testávamos num bar local se a Huari sabia tão bem depois de almoço como tinha sabido na noite anterior. No dito bar, onde se faziam pizzas artesanais, havia uma foto em grande destaque da torre de Pisa, colocada na parede de forma simétrica para manter a assimetria que lhe deu fama. Na televisão, para onde todos os empregados olhavam embascacados, tinham acabado o Rambo - não sei bem se II, III, IV ou V, nem sei bem se há cinco? -, e começava agora o marvilhoso mundo do “wrestling” americano, embora relatado em castelhano. Chegaram duas raparigas muito saudáveis, que se juntaram a outras duas na mesa ao lado, que falavam hebraico. Passados uns minutos, chegaram uns rapazes, que não conheciam as raparigas, mas que as tinham ouvido falar e se aproximaram, falando também hebraico. E eis que mais tarde chega um casal, que não conhecia nem as raparigas nem os rapazes, mas que falavam hebraico. Retirei cuidadosamente as folhas de coca, voltei a colocar uma carga nova e deixei-me estar a assistir a este filme, em hebraico. Perguntei só à rapariga do lado se por acaso não tinham chegado todos na mesma excursão? Não era o caso. Sendo assim, sabia de alguma razão especial para que aquele ponto no mapa da Bolívia estivesse cheio de israelitas, até porque já nos tínhamos cruzado com outros na rua? Não. Obrigado, estávamos não-esclarecidos. E mais ainda ficámos quando um dos rapazes que atendia às mesas foi directo à sua aparelhagem de som e lhe colocou um CD de um artista hebraico, que cantava na língua-mãe e que, com excepção à nossa mesa, provocou uma certa “risota”, algo conspirativa, seguramente trocista, como se alguém tivesse desenterrado um velho êxito da canção hebraica. Coisa de hebreus, já se vê. Nem nós nem o empregado tínhamos compreendido muito bem a razão daqueles sorrisos. Seria a letra? Ou seria um daqueles artistas que a nova geração não resiste a ridicularizar? Ou seriam as duas coisas e mais a terceira?
dia79_03.JPGFosse como fosse, aproveitei para indagar com subtileza, numa incursão ao WC, que ficava lá dentro, na cozinha, onde o chefe-pizzeiro, moderníssimo, com uma camisola de basquetebol da NBA até aos joelhos e um boné, com a pala virada para a parede atrás dele, aplicava uns bons açoites na massa, pouco contente de ter sido afastado da sessão de “wrestling” pelo pessoal que se atrevera a pedir pizza naquela pizzaria, àquela hora precisa, na qual aparentemente só jantavam os hebreus. Ã’ amigo reformado de um gang, desculpe lá interromper os correctivos à massa inocente, mas por acaso sabe o porquê de haver tantos israelitas em Tupiza, sem querer interromper “su pizza”?

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O nosso mestre não apanhou a piada, que servia para quebrar o gelo que tinha instalado na cozinha, já que a casa-de-banho estava ocupada por um elemento da família. Não fazia a menor ideia o rapaz. E também não sabia da existência do CD que continha a estranha melodia, que se suspeitava do cancioneiro popular hebraico. Por uma questão de princípio, transportei a dúvida para o WC e sai de lá com ela, de regresso à mesa, onde monsieur Pazat dava um mirone na ementa, enquanto colocava mais umas folhinhas no canto da boca, para espanto das raparigas do lado. Num gesto de simpatia, perguntei-lhes se não queriam experimentar a cultura local? Em castelhano perguntou-me uma delas o que era aquilo? Coca. Calma. “Hoja de coca”. Não valia a perna estarem a torcer o nariz, pois não era ali a porta de entrada. E vocemecê, monsieur Pazat, era bom que não cedesse à tentação da pizza, o que não acontecemente raramente, tal como em relação às “hamburguesas completas”, que eu tinha planos para o jantar. Nem tinha reparado que o Gui tinha a ementa aberta na secção dos “cocktails” e que tinha um dedo a sublinhar uma palavra que nos é muito cara, e que neste caso estava baratíssimo: Pisco. Amigo… Amigo… Sim, tu aí que tinhas posto o som ambiente, duas coisa, aliás, três. Desculpa estes modos de Sundance Kid, mas gostávamos de saber que música é aquela, porque a tinhas escolhido e porque havia tantos israelitas em Tupiza. E, já agora, dois pisco, na modalidade “sour”. “No hay, señor!”. Ai… “No hay señor”. É de comiseração, muchacho. E quanto ao resto da lista, era possível uma marguerita ou coisa que o valha? Não era possível porque o experto em cocktails ainda não tinha chegado. Nesse caso, duas Huari geladas e a “cuenta”, por favor, que já se estavam a fazer horas para um “cordero” que eu tinha visto anunciado em ardósia lá para os confins da cidade, onde fica a estação de autobuses, para onde seguimos meia-hora depois, ainda a matutar neste mistério de Israel em Tupiza, ainda agravado por termos passado por uma loja que tinha um cartaz com a palavra Jerusalém.

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Foi decididamente o cordero e mais qualquer coisa de transcendente que nos atraiu para aquele restaurante, que parecia fechado. Não estava. E a prova é que, quando entrávamos, estava de saída um triunvirato em estado adiantadíssimo de bebedeira, amparando-se uns aos outros, para não cair, o que não dava jeito porque a porta era para um. Primeiro as senhoras, que eram duas, depois o senhor, que de passagem deixou vivas recomendações ao vinho da casa. De onde es? “Boliviano, de Tupiza”. Já não fui a tempo de lhe dizer que me referia ao vinho, pois mal entrámos já estávamos a ser cumprimentados por uma dupla que cantava, um deles à viola, o outro ao saco de coca, fazendo a segunda voz, a voz fantasma, a voz que incrementa o tímbre. Não sei porquê, tive a certeza absoluta que a nossa noite ia acabar naquela mesa, até porque nela estava também o dono do estabelecimento que, depois de abocanhar uma dose de folhas, veio à nossa presença e indicou-nos uma mesa. Atrás, a dupla cantava. E não era só uma canção. Cantavam alma, sobre a Bolívia, sobre a metáfora de vida no rio que passa. Para cantar a alma, é preciso ter alma. E isso nota-se sempre que se arrepia a pele. E a minha estava arrepiada.

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Acabámos por mudar de mesa, para o ar-livre, onde não estava ninguém, apenas os despojos do trio que acabara de se cruzar connosco à saída. Vinho e cordero, amigo Isaias. Duas garrafas de tinto boliviano tombaram em nossa honra, o cordero estava de repetir, se houvesse coragem. Monsieur Pazat, no entretanto, deslocara-se à mesa dos cantores, onde já estavam duas garrafas vazias de uma bebida branca, uma espécie de vodka boliviano, cuja regional, que podia ter nome mas não tem, e voltou com informação importantíssima: Incluindo o dono do restaurante, estavam todos com os copos. O segunda-voz fazia anos. Seria, portanto, uma indelicadeza não me apresentar, apresentando “felicitaciones” ao aniversariante. Quando cheguei, porém, o segunda-voz já não estava. Milésimos de segundo não nos permitiram cumprimentos a preceito. Sendo assim, conheci Fernando, guitarrista e “leading vocals” do duo, que tem dois discos editados na Bolívia. Seguiram-se canções e garrafas, daquelas que estavam despejadas à nossa frente, daquelas que nós havíamos de ajudar a despejar, tal como os sacos de folha de coca, quando Isaias fechou a loja para se sentar à nossa mesa, que era a mesa dele. Uma hora depois, Fernando era o meu melhor amigo. Aliás, “hermano”, dando graças a Deus por nos termos conhecido, sabendo que não fora isto coincidência, chorando, fazendo-me chorar, cantando, bebendo, mascando, falando desta Bolívia que ele ama, falando da Bolívia que um dia o mandou prender, falando da Bolívia que lhe fizera uma tatuagem no braço com o seu número de reclusão, falando do seu filho que não vê há anos, falando de nós, falando de como somos de todo o lado, falando de como seria bom se todos esses lados fossem uma grande nação, onde todos nos sentássemos à mesa, desconhecidos, saindo delas hermanos para ir à casa-de-banho. Mais três garrafas daquelas desapareceram. Abraços, juras de amizade, jura que havia de brindar a Fernando quando for 26 de Abril, o dia em que cumpre meio-século, coisa que hei-de cumprir. A letra das canções, que se repetiam, era cada vez mais toldada pela voz ébria. Isaias tinha sete filhas. E Umbaldo, o seu filho varone, o seu orgulho. Fernando chorava, sorria, dando-nos esse privilégio. Tínhamos todos uma missão: fazer horas para nos levarem à estação de autobuses às quatro da manhã, nem que para isso fosse preciso ir buscar mais uma garrafa, coisa que aconteceu. Às duas, Fernando teimou que tínhamos de ir a casa dele conhecer a mulher. Isaias disse que era melhor que não fôssemos, porque a mulher não ia reagir bem. E, apesar de todas as tentativas de Fernando, não fomos. Fernando foi, depois de mil abraços e de mil promessas de nos reencontrarmos, da próxima vez provavelmente. Ficámos com Isaias até às três e meia. Amigos. Hermanos. Como são os amigos e hermanos que não se conhecem e se abraçam à despedida. Pazat e moi chegámos ao terminal de autobuses mais acordados que a maioria. E a camioneta a cair de podre onde entrámos havia de me ouvir cantar qualquer coisa remotamente parecida com o que ouviramos cantar.

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Comentários

8 respostas to “Dia 79”

  1. Apiko on April 8th, 2008 10:05 am

    Estás en tu elemento natural Luis, o sea en los brazos de Baco…..

    Sabias que los israelitas antes de conseguiren las tierras que ahora tienen, intentaron comprar territorios en América del Sur?….Puede ser que Tupiza, haya sido la proto_capital de ese território, digo yo, no sé!

  2. Carla Neto on April 8th, 2008 11:03 am

    Oi LuíS1
    eU E Z. adoramos o diário!
    As coisas aqui em Bilbao não podiam estar a correr melhor!
    O rapaz é óptimo profissional, imparável e tem a maquinaria bem oleada!
    Bem, ainda não perdio as esperanças de fazer também a coisa com o nosso Jordi, talvez ele se entusiasme com um dos meus novos projectos: “Os ani,ais são nossos amigos”, “A Abelha Maia no Paraíso”, “Calimero e os sete Matulões”…vamos ver…

    Boa continuação.
    beijinhos.

    Teus Z. e Carlinha.

  3. myra gore on April 8th, 2008 11:28 am

    Bonita e cheia de ternura a fotografia com a criança…

  4. Carla Neto on April 8th, 2008 1:07 pm

    Tou-ta dever uma Nelson ;)

  5. Carla Neto on April 8th, 2008 6:33 pm

    Ps: Luís, muito obrigada pelo teu apoio!Foste a única pessoa que acreditou neste projecto desde o início!!!

    Z. manda-te um mega abraço, ficou super contente quando soube que tu vais escrever o texto.Depois mandamos-te algumas provas para te inspirares, não é que precises lá muito…

    Beijinhos.
    Teus Z. e Carlinha

  6. Nina on April 9th, 2008 12:54 am

    Que lindos que vocês são.
    Há Luis na Terra e Deus no céu.

  7. cyberannie on April 9th, 2008 1:22 am

    Trés surprenante cette histoire d´Israélites á Tupiza
    Bonne continuation

  8. Carla Neto on April 9th, 2008 8:58 pm

    !!sotnemitnesser moc euquif oãn ele euq orepse idroJ oa sohnijieb

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