Diário de viagem, Especial Visão 14/FEV

Estação do Calor

Dia 81

As viagens nunca são o que planeamos. As viagens nunca são viagens se as planearmos geometricamente e as cumprirmos como às ordens de um comandante de excursão. As viagens são olhares. E os olhares não se planeiam. As viagens são esquinas. Nunca sabemos o que está para lá. As viagens são dureza. E são leveza. A leveza mais leve do mundo. As viagens não são longitude e latitude, meridianos e ângulos, perpendiculares e códigos postais. Isso é outra coisa. Isso são graus e traços a compasso e as fronteiras que o mundo tem.
As viagens são os pedaços de mundo, que se recolhem nos pontos inexactos e improváveis onde as pessoas se cruzam com as pessoas, deixando com elas qualquer coisa de nós, transportando nós qualquer coisa delas, em silêncios, em palavras, em gestos, em sorrisos, em coisas simples, indetermináveis, determinantes, parando em movimento, parando o movimento do comboio global e mecânico onde seguem os passageiros do quotidiano. As viagens são a alegria absoluta. E são desalento e desespero e imprevisibilidades e cansaço e força que se encontra. E saber que no dia seguinte não sabemos o caminho. E saber que há um recomeço de tudo, de tudo quanto está por ver, por saber, por experimentar, por conhecer. Viagem que é viagem só começa, nunca termina, entranha-se, adquire vida própria e, dentro, viaja. E, dentro, viaja muito depois de termos chegado.

As viagens somos nós. As viagens são sempre a nós, aos nossos confins, aos sítios de nós onde ainda não tínhamos estado. Quanto mais conhecemos do mundo, mais ele se torna maior. E nisso não existe maior grandeza.

É por isso que esta viagem não acaba aqui. Recusamos que acabe aqui e assim. Redundante, pois, dizer que o Estação do Calor vai continuar a ser um espaço de viagem, sem rota traçada, mas com longo caminho para andar. Há uma série de reportagens, que iremos publicar neste site e na revista Visão. E há ainda muito, muito, muito para ver. Será exactamente aquilo em que se transformar.
E, mesmo correndo o risco de parecermos um jogador de futebol perante a taça, queremos agradecer a todos quantos continuam a acreditar na raíz quadrada do homem, em todos os que sabem que Chagall não é o nome de código de uma célula terrorista, que os caminhos feitos são infinitamente menores do que aqueles que estão por fazer, que os países não se medem aos palmos, que a grandeza é feita de coisas pequenas, que as frases têm pontos, antecedidos de vírgulas, a viajar para um parágrafo, que simplesmente procura outra frase.

Um abraço do tamanho do mundo para todos quanto viajaram connosco. Um abraço especial para aqueles que sabem que nós sabemos que estiveram dia e noite connosco, que foram ânimo no nosso desânimo, alegria na nossa alegria, solução no nosso problema.

Para resumir:

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30 comentários 

Dia 26

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Não vale a pena teorizar mais sobre o quotidiano de três campistas acidentais ocidentais, que encontram finalmente um lugar debaixo do chuveiro, driblando tiudo e todos, demonstrando até alguma mestria de balneário. Ainda bem, pois era um dia muito importante, que Oscar fez questão de nos relembrar logo pela manhã, quando nos encontrou na estação de serviço. Where else?

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Dia 25

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E o parque de campismo amanheceu exactamente como tinha adormecido: Sem água para tomar duche. Por respeito a toda a população do pueblo e da área limítrofre, resolvemos esperar até que a água chegasse. Fosse a que horas fosse.

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Dia 24

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Sob os auspícios de Oscar de Brito, que fez questão de nos ir buscar cedíssimo ao parque de campismo de Rada Tilly, fomos à descoberta das idiossincrassias de Comodoro Rivadavia. Oscar é daquele género de pessoas que outra coisa não há fazer se não gostar.

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Dia 23

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Para esclarecer que o magnífico parque de campismo em que nos encontramos não é no enorme poço petrolífero chamado Comodoro Rivadavia, mas no lugar onde se dá uso ínfimo aos milhões e milhões de petro-dólares que são sugados da vizinhança.

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