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	<title>Estação do Calor</title>
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	<description>Documentário</description>
	<pubDate>Thu, 17 Apr 2008 13:08:29 +0000</pubDate>
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		<itunes:subtitle>Documentaacute;rio sobre ecologia</itunes:subtitle>
		<itunes:summary>Ateacute; ao final de Marccedil;o, acompanhe o diaacute;rio de viagem de trecirc;s repoacute;rteres da Kameraphoto pela Ameacute;rica do Sul. A temaacute;tica central seratilde;o os problemas ecoloacute;gicos que assolam a regiatilde;o. Natilde;o perca as histoacute;rias, os viacute;deos e as galerias de fotos em www.estacaodocalor.org</itunes:summary>
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		<title>Dia 81</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Apr 2008 08:06:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><a href="http://www.estacaodocalor.org/category/diario-de-viagem/"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/hastaluego.jpg" alt="hastaluego.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="391" width="400" /></a></p>As viagens nunca são o que planeamos. As viagens nunca são viagens se as planearmos geometricamente e as cumprirmos como às ordens de um comandante de excursão. As viagens são olhares. E os olhares não se planeiam. As viagens são esquinas. Nunca sabemos o que está para lá. As viagens são dureza. E são leveza. A leveza mais leve do mundo. As viagens não são longitude e latitude, meridianos e ângulos, perpendiculares e códigos postais. Isso é outra coisa.(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As viagens nunca são o que planeamos. As viagens nunca são viagens se as planearmos geometricamente e as cumprirmos como às ordens de um comandante de excursão. As viagens são olhares. E os olhares não se planeiam. As viagens são esquinas. Nunca sabemos o que está para lá. As viagens são dureza. E são leveza. A leveza mais leve do mundo. As viagens não são longitude e latitude, meridianos e ângulos, perpendiculares e códigos postais. Isso é outra coisa. Isso são graus e traços a compasso e as fronteiras que o mundo tem.<br />
As viagens são os pedaços de mundo, que se recolhem nos pontos inexactos e improváveis onde as pessoas se cruzam com as pessoas, deixando com elas qualquer coisa de nós, transportando nós qualquer coisa delas, em silêncios, em palavras, em gestos, em sorrisos, em coisas simples, indetermináveis, determinantes, parando em movimento, parando o movimento do comboio global e mecânico onde seguem os passageiros do quotidiano. As viagens são a alegria absoluta. E são desalento e desespero e imprevisibilidades e cansaço e força que se encontra. E saber que no dia seguinte não sabemos o caminho. E saber que há um recomeço de tudo, de tudo quanto está por ver, por saber, por experimentar, por conhecer. Viagem que é viagem só começa, nunca termina, entranha-se, adquire vida própria e, dentro, viaja. E, dentro, viaja muito depois de termos chegado.</p>
<p>As viagens somos nós. As viagens são sempre a nós, aos nossos confins, aos sítios de nós onde ainda não tínhamos estado. Quanto mais conhecemos do mundo, mais ele se torna maior. E nisso não existe maior grandeza.</p>
<p>É por isso que esta viagem não acaba aqui. Recusamos que acabe aqui e assim. Redundante, pois, dizer que o Estação do Calor vai continuar a ser um espaço de viagem, sem rota traçada, mas com longo caminho para andar. Há uma série de reportagens, que iremos publicar neste site e na revista Visão. E há ainda muito, muito, muito para ver. Será exactamente aquilo em que se transformar.<br />
E, mesmo correndo o risco de parecermos um jogador de futebol perante a taça, queremos agradecer a todos quantos continuam a acreditar na raíz quadrada do homem, em todos os que sabem que Chagall não é o nome de código de uma célula terrorista, que os caminhos feitos são infinitamente menores do que aqueles que estão por fazer, que os países não se medem aos palmos, que a grandeza é feita de coisas pequenas, que as frases têm pontos, antecedidos de vírgulas, a viajar para um parágrafo, que simplesmente procura outra frase.</p>
<p>Um abraço do tamanho do mundo para todos quanto viajaram connosco. Um abraço especial para aqueles que sabem que nós sabemos que estiveram dia e noite connosco, que foram ânimo no nosso desânimo, alegria na nossa alegria, solução no nosso problema.</p>
<p>Para resumir:</p>

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<p><a href="http://www.estacaodocalor.org/download-manager.php?id=7">download este vídeo com mais qualidade para ipod ou outros fins. </a></p>
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		<title>Dia 80</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Apr 2008 01:15:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_01.thumbnail.JPG" alt="dia80_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter" /></p>
 "Con todo cariño para mis amigos de Portugal y Francia, Luís Pedro Cabral - Guillaume Philippe, un recuerdo con ele alma, para que siempre se acurden  de un amigo de Tupiza, Bolívia, Isaias Delgado Garcia, que siempre estara pidiendo a Dios que les vaya bien en la vida y com sus familias. Gracias a Dios". ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_01.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p> &#8220;Con todo cariño para mis amigos de Portugal y Francia, Luís Pedro Cabral - Guillaume Philippe, un recuerdo con ele alma, para que siempre se acurden  de un amigo de Tupiza, Bolívia, Isaias Delgado Garcia, que siempre estara pidiendo a Dios que les vaya bien en la vida y com sus familias. Gracias a Dios&#8221;. Estava guardada na minha mochila esta mensagem que Isaias, o dono do restaurante onde estivémos, tinha escrito atrás de uma foto do seu álbum de família. Gente boa esta de Tupiza, genuína, coração grande. O que ardia da bebida nas suas gargantas secas de tanto cantar, apenas salientava isso. Em certa medida, sem nos mexermos, deixámos de estar no restaurante de Isaias, mas em sua casa, depois de Fernando, o mais emocionado da noite, se ter resignado a ir para a sua, reconhecendo o seu grau avançado de alcoolemia. Isaias falou-nos dos seus projectos, sempre à volta da restauração, por sua vez sempre à volta dos corderos no churrasco, falou-nos das suas dificuldades, da infância, onde Fernando era presença, e falou-nos de uma Bolívia muito diferente desta, para onde tínhamos cada vez mais vontade de partir, sabendo que tínhamos de partir para o sentido contrário. Esta é uma Bolívia de paz e a Bolívia não é bem assim. E já agora explorou a possibilidade de poder ficar com o Falcon, já que o Gui, na apoteose, lhe disse que lhe ofereciamos o carro.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_02.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_02.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p>A bordo de uma máquina dos infernos a que chamam autocarro, de Tupiza para Villazon, de regresso à fronteira da Bolívía com a Argentina. Apesar do cedo da hora, a carripeta estava lotada. Também não era preciso muito. Coisa de vinte pessoas faziam a festa, embora fôssemos nós quem no início do trajecto atirávamos os foguetes e apanhávamos as canas. Foi um regabofe de primeira categoria, enquanto não digerimos convenientemente a beberagem, pausando as aplicações de &#8220;hoja de coca&#8221;, para ver se conseguiamos dormir um bocado, coisa que a maior parte das pessoas no autocarro já fazia, apesar das nossas inúmeras tentativas para os manter acordados. Porém, apenas o condutor dava troco, nitidamente satisfeito por sentir alguém, como ele, acordado. Lentamente, o sono apoderou-se de nós. Devagar, devagar, até a cara tombar para o vidro da camioneta, o que provocava algo compatível a viajar dentro de uma máquina de lavar, dado que o caminho de volta parecia ter muito mais buracos do que teve o que nos tinha levado a Tupiza. Enfim, foram quatro horas aos tombos, sempre acompanhados por roncos lá atrás, lá à frente, mesmo ao meu lado.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_03.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_03.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p> Acordámos em Villazon com o condutor da camioneta a bater palmas. Não é que estivesse contente por termos chegado. Era mesmo para acordar os resistentes, sobretudo um certo francês, que tinha a cabeça em posição pendular. Aproveitando o sono dos que chegavam, deslocou-se ao autocarro uma autêntica comitiva de recepção, que ataca estrategicamente os estrangeiros, oferecendo-lhe um autocarro para a Argentina, evitando horas de espera na fronteira. Que deixássemos com eles, eles tratavam de tudo. Era só pagar o dobro do preço, que iamos pagar caso cruzassemos a pé a fronteira e apanhar uma camioneta em La Quiaca, o primeiro reduto argentino, onde tínhamos chegado há uns dias. Sendo assim, &#8220;muchas gracias&#8221;. Vamos a pé.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_04.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_04.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p>Villazon também acordava. E espreguiçava-se já até aos limites da fronteira e para lá, para onde seguem muitos comerciantes bolivianos, em busca de moeda mais forte, lucrando no câmbio dos produtos que vendem. Ao longo da avenida poeirenta para a fronteira, os comerciantes deste lado começavam a abrir os longos estores metálicos e a pendurar a sua oferta cá fora. De uma disco local saiam os últimos clientes, três homens e uma mulher, que negociava com um deles o resto daquela noite que já era dia. Para ser sincero também já só pensava em cama. Ou, pelo menos, um bom lugar no autocarro de La Quiaca para Jujuy. Ao primeiro sol, fenómeno que me causa um estranho amargo quando estou de directa, ou coisa parecida, as pernas estavam pesadas, o corpo doia, o peito ardia. E a fila para a aduana tinha coisa de um quilómetro. Lá ou fundo, eram perceptíveis duas entradas rápidas, mas era para quem chegava de bicicleta. E, nesta fila, o estatuto de estrangeiro não vale, o que é simplesmente justo. Policias argentinos iam orientando a fila, fazendo questão de demonstrar grande agressividade em relação aos bolivianos, mesmo por baixo de um enorme sinal que dizia que os cidadãos tinham o direito de queixar-se de maus-tratos policiais na aduana e que podiam apresentar queixa. Tudo isto, formalmente, ainda em território boliviano.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_05.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_05.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p>Facílimo ser arrogante perante uma senhora, mesmo à nossa frente, que viajava com a tralha e três filhos à ilharga, que no entanto sorria às ordens que lhe davam. A senhora ia ter com familiares a Buenos Aires. Não estava para oferecer discussão ao pequeno funcionário da farda azul, meramente a exercer o seu pequeno poder, provavelmente mais pequeno do que ele. Não tão grande, por isso, que impedisse grande parte da assistência de rir. Uma mochileira alemã barafustava mais atrás na língua-mãe. Mais atrás, a fila esticava-se cada vez mais, fruto de uma lentidão exasperante dos aduaneiros, que faziam autênticos interrogatórios aos bolivianos que queriam entrar, revistando tudo e mais alguma coisa. Não esquecer que a coca e a chicha, embora distintos, são dois produtos nacionais da Bolívia. A chicha, torna-se até algo desinteressante, sendo que o seu teor alcoólico é nulo, não estando na categoria das &#8220;exportações&#8221;. Quanto à coca, já se sabe: Basta um simples tubinho para entrar. E, em boa verdade, aquela era uma porta de entrada.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_06.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_06.JPG" height="333" width="500" /></p>
<p>Na fila, a passo de caracol esclerosado, faltavam-nos as pernas. O cansaço da noite instalara-se definitivamente e com ele um desespero, que nada trazia de útil para a velocidade de atendimento. Foram, pois, duas horas a caminhar para a cruz, sendo que a passagem na aduana não demorou mais de dois minutos. Foi uma questão de caminhar até ao terminal de autobuses de La Quiaca, comprando dois bilhetes para o primeiro autocarro que saisse. Não foi grande opção. Esse autocarro parava em tudo o que era sítio. Juntando a isto algumas paragens na policia, para que os passageiros e o autocarro fossem revistados, a viagem demorou mais de sete horas. E foi penosamente de não pregar olho. Chegámos de novo à residencial de Jujuy, com ares de quem acabara de chegar da guerra. O dono da residencial tranquilizou-nos imediatamente: O Falcon estava bem e recomendava-se e nós tínhamos o nosso quarto preparado. Jantar e dormir. A viagem de regresso a Buenos Aires, distante mil e 700 quilómetros, começava amanhã. Não sei porquê, deu-me uma nostalgia galopante.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia80_07.jpg" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia80_07.jpg" height="333" width="500" /></p>
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		<title>Dia 79</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Apr 2008 08:01:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_01.thumbnail.JPG" alt="dia79_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter" /></p>
"Si, señora, salimos hoy". Sim senhora, saímos hoje de Tupiza. Mas era provável que hoje fosse só amanhã. O autocarro era só às quatro da manhã. De modo que tínhamos o dia inteiro para continuar esta inefável terefa de não fazer pêva. Esperava-nos mais um daqueles dias em que as coisas não precisam de ser feitas. Não interessa bem a maneira como não se faz, porque isso é tão importante como qualquer coisa que se faça.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_01.JPG" alt="dia79_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>&#8220;Si, señora, salimos hoy&#8221;. Sim senhora, saímos hoje de Tupiza. Mas era provável que hoje fosse só amanhã. O autocarro era só às quatro da manhã. De modo que tínhamos o dia inteiro para continuar esta inefável terefa de não fazer pêva. Esperava-nos mais um daqueles dias em que as coisas não precisam de ser feitas. Não interessa bem a maneira como não se faz, porque isso é tão importante como qualquer coisa que se faça. E, naquele momento, não nos ocorria coisa melhor para fazer do que conhecer a população de Tupiza, que só muito raramente não tem algo para vender ou para comprar. Neste recanto da Bolívia, os sorrisos são de graça. A cidade está apinhada de turistas, que enchem os albergues de juventude de uma juventude de mochila às costas que chega ou vai para a Argentina. De manhã começa-se a ver chegar magníficos exemplares de &#8220;camionetas&#8221; (carripetas de caixa aberta) com  cilindradas astronómicas, carregadas de tudo quanto é suportável em altura, com a carga atada por cordas instáveis, com a elasticidade apropriada para as crateras na estrada. À cidade chegavam autocarros cheios de nativos mascantes e de narizes estrangeiros, munidos de mapas de região e informação sobre Tupiza.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_2a.jpg" alt="dia79_2a.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Não há, porém, informação disponível sobre um estranho fenómeno que ocorre em Tupiza, que só se tornou claro à tarde, quando testávamos num bar local se a Huari sabia tão bem depois de almoço como tinha sabido na noite anterior. No dito bar, onde se faziam pizzas artesanais, havia uma foto em grande destaque da torre de Pisa, colocada na parede de forma simétrica para manter a assimetria que lhe deu fama. Na televisão, para onde todos os empregados olhavam embascacados, tinham acabado o Rambo - não sei bem se II, III, IV ou V, nem sei bem se há cinco? -, e começava agora o marvilhoso mundo do &#8220;wrestling&#8221; americano, embora relatado em castelhano. Chegaram duas raparigas muito saudáveis, que se juntaram a outras duas na mesa ao lado, que falavam hebraico. Passados uns minutos, chegaram uns rapazes, que não conheciam as raparigas, mas que as tinham ouvido falar e se aproximaram, falando também hebraico. E eis que mais tarde chega um casal, que não conhecia nem as raparigas nem os rapazes, mas que falavam hebraico. Retirei cuidadosamente as folhas de coca, voltei a colocar uma carga nova e deixei-me estar a assistir a este filme, em hebraico. Perguntei só à rapariga do lado se por acaso não tinham chegado todos na mesma excursão? Não era o caso. Sendo assim, sabia de alguma razão especial para que aquele ponto no mapa da Bolívia estivesse cheio de israelitas, até porque já nos tínhamos cruzado com outros na rua? Não. Obrigado, estávamos não-esclarecidos. E mais ainda ficámos quando um dos rapazes que atendia às mesas foi directo à sua aparelhagem de som e lhe colocou um CD de um artista hebraico, que cantava na língua-mãe e que, com excepção à nossa mesa, provocou uma certa &#8220;risota&#8221;, algo conspirativa, seguramente trocista, como se alguém tivesse desenterrado um velho êxito da canção hebraica. Coisa de hebreus, já se vê. Nem nós nem o empregado tínhamos compreendido muito bem a razão daqueles sorrisos. Seria a letra? Ou seria um daqueles artistas que a nova geração não resiste a ridicularizar? Ou seriam as duas coisas e mais a terceira?<br />
<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_03.JPG" alt="dia79_03.JPG" class="imageframe imgalignleft" height="500" width="333" />Fosse como fosse, aproveitei para indagar com subtileza, numa incursão ao WC, que ficava lá dentro, na cozinha, onde o chefe-pizzeiro, moderníssimo, com uma camisola de basquetebol da NBA até aos joelhos e um boné, com a pala virada para a parede atrás dele, aplicava uns bons açoites na massa, pouco contente de ter sido afastado da sessão de &#8220;wrestling&#8221; pelo pessoal que se atrevera a pedir pizza naquela pizzaria, àquela hora precisa, na qual aparentemente só jantavam os hebreus. Ò amigo reformado de um gang, desculpe lá interromper os correctivos à massa inocente, mas por acaso sabe o porquê de haver tantos israelitas em Tupiza, sem querer interromper &#8220;su pizza&#8221;?</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_04.JPG" alt="dia79_04.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>O nosso mestre não apanhou a piada, que servia para quebrar o gelo que tinha instalado na cozinha, já que a casa-de-banho estava ocupada por um elemento da família. Não fazia a menor ideia o rapaz. E também não sabia da existência do CD que continha a estranha melodia, que se suspeitava do cancioneiro popular hebraico. Por uma questão de princípio, transportei a dúvida para o WC e sai de lá com ela, de regresso à mesa, onde monsieur Pazat dava um mirone na ementa, enquanto colocava mais umas folhinhas no canto da boca, para espanto das raparigas do lado. Num gesto de simpatia, perguntei-lhes se não queriam experimentar a cultura local? Em castelhano perguntou-me uma delas o que era aquilo? Coca. Calma. &#8220;Hoja de coca&#8221;. Não valia a perna estarem a torcer o nariz, pois não era ali a porta de entrada. E vocemecê, monsieur Pazat, era bom que não cedesse à tentação da pizza, o que não acontecemente raramente, tal como em relação às &#8220;hamburguesas completas&#8221;, que eu tinha planos para o jantar. Nem tinha reparado que o Gui tinha a ementa aberta na secção dos &#8220;cocktails&#8221; e que tinha um dedo a sublinhar uma palavra que nos é muito cara, e que neste caso estava baratíssimo: Pisco. Amigo&#8230; Amigo&#8230; Sim, tu aí que tinhas posto o som ambiente, duas coisa, aliás, três. Desculpa estes modos de Sundance Kid, mas gostávamos de saber que música é aquela, porque a tinhas escolhido e porque havia tantos israelitas em Tupiza. E, já agora, dois pisco, na modalidade &#8220;sour&#8221;. &#8220;No hay, señor!&#8221;. Ai&#8230; &#8220;No hay señor&#8221;. É de comiseração, muchacho. E quanto ao resto da lista, era possível uma marguerita ou coisa que o valha? Não era possível porque o experto em cocktails ainda não tinha chegado. Nesse caso, duas Huari geladas e a &#8220;cuenta&#8221;, por favor, que já se estavam a fazer horas para um &#8220;cordero&#8221; que eu tinha visto anunciado em ardósia lá para os confins da cidade, onde fica a estação de autobuses, para onde seguimos meia-hora depois, ainda a matutar neste mistério de Israel em Tupiza, ainda agravado por termos passado por uma loja que tinha um cartaz com a palavra Jerusalém.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_05.JPG" alt="dia79_05.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Foi decididamente o cordero e mais qualquer coisa de transcendente que nos atraiu para aquele restaurante, que parecia fechado. Não estava. E a prova é que, quando entrávamos, estava de saída um triunvirato em estado adiantadíssimo de bebedeira, amparando-se uns aos outros, para não cair, o que não dava jeito porque a porta era para um. Primeiro as senhoras, que eram duas, depois o senhor, que de passagem deixou vivas recomendações ao vinho da casa. De onde es? &#8220;Boliviano, de Tupiza&#8221;. Já não fui a tempo de lhe dizer que me referia ao vinho, pois mal entrámos já estávamos a ser cumprimentados por uma dupla que cantava, um deles à viola, o outro ao saco de coca, fazendo a segunda voz, a voz fantasma, a voz que incrementa o tímbre. Não sei porquê, tive a certeza absoluta que a nossa noite ia acabar naquela mesa, até porque nela estava também o dono do estabelecimento que, depois de abocanhar uma dose de folhas, veio à nossa presença e indicou-nos uma mesa. Atrás, a dupla cantava. E não era só uma canção. Cantavam alma, sobre a Bolívia, sobre a metáfora de vida no rio que passa. Para cantar a alma, é preciso ter alma. E isso nota-se sempre que se arrepia a pele. E a minha estava arrepiada.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_06.JPG" alt="dia79_06.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Acabámos por mudar de mesa, para o ar-livre, onde não estava ninguém, apenas os despojos do trio que acabara de se cruzar connosco à saída.  Vinho e cordero, amigo Isaias. Duas garrafas de tinto boliviano tombaram em nossa honra, o cordero estava de repetir, se houvesse coragem. Monsieur Pazat, no entretanto, deslocara-se à mesa dos cantores, onde já estavam duas garrafas vazias de uma bebida branca, uma espécie de vodka boliviano, cuja regional, que podia ter nome mas não tem, e voltou com informação importantíssima: Incluindo o dono do restaurante, estavam todos com os copos. O segunda-voz fazia anos. Seria, portanto, uma indelicadeza não me apresentar, apresentando &#8220;felicitaciones&#8221; ao aniversariante. Quando cheguei, porém, o segunda-voz já não estava. Milésimos de segundo não nos permitiram cumprimentos a preceito. Sendo assim, conheci Fernando, guitarrista e &#8220;leading vocals&#8221; do duo, que tem dois discos editados na Bolívia. Seguiram-se canções e garrafas, daquelas que estavam despejadas à nossa frente, daquelas que nós havíamos de ajudar a despejar, tal como os sacos de folha de coca, quando Isaias fechou a loja para se sentar à nossa mesa, que era a mesa dele. Uma hora depois, Fernando era o meu melhor amigo. Aliás, &#8220;hermano&#8221;, dando graças a Deus por nos termos conhecido, sabendo que não fora isto coincidência, chorando, fazendo-me chorar, cantando, bebendo, mascando, falando desta Bolívia que ele ama, falando da Bolívia que um dia o mandou prender, falando da Bolívia que lhe fizera uma tatuagem no braço com o seu número de reclusão, falando do seu filho que não vê há anos, falando de nós, falando de como somos de todo o lado, falando de como seria bom se todos esses lados fossem uma grande nação, onde todos nos sentássemos à mesa, desconhecidos, saindo delas hermanos para ir à casa-de-banho. Mais três garrafas daquelas desapareceram. Abraços, juras de amizade, jura que havia de brindar a Fernando quando for 26 de Abril, o dia em que cumpre meio-século, coisa que hei-de cumprir. A letra das canções, que se repetiam, era cada vez mais toldada pela voz ébria. Isaias tinha sete filhas. E Umbaldo, o seu filho varone, o seu orgulho. Fernando chorava, sorria, dando-nos esse privilégio. Tínhamos todos uma missão: fazer horas para nos levarem à estação de autobuses às quatro da manhã, nem que para isso fosse preciso ir buscar mais uma garrafa, coisa que aconteceu. Às duas, Fernando teimou que tínhamos de ir a casa dele conhecer a mulher. Isaias disse que era melhor que não fôssemos, porque a mulher não ia reagir bem. E, apesar de todas as tentativas de Fernando, não fomos. Fernando foi, depois de mil abraços e de mil promessas de nos reencontrarmos, da próxima vez provavelmente. Ficámos com Isaias até às três e meia. Amigos. Hermanos. Como são os amigos e hermanos que não se conhecem e se abraçam à despedida. Pazat e moi chegámos ao terminal de autobuses mais acordados que a maioria. E a camioneta a cair de podre onde entrámos havia de me ouvir cantar qualquer coisa remotamente parecida com o que ouviramos cantar.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia79_07.JPG" alt="dia79_07.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
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		<title>Dia 78</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Apr 2008 12:22:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_01.thumbnail.JPG" alt="dia78_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter"  /></p>
Sono interrompido por uma versão sul-americana de Julio Iglesias, el "forever young", aqui adaptado a ritmo de cumbia, com a voz secundada pela matrona da residencial, que estava na cozinha, mesmo em frente ao nosso quarto de rés-do-chão, a  preparar alegremente o almoço para a família. Monsieur Pazat não gostou do tema e assobiou.(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_01.JPG" alt="dia78_01.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Sono interrompido por uma versão sul-americana de Julio Iglesias, el &#8220;forever young&#8221;, aqui adaptado a ritmo de cumbia, com a voz secundada pela matrona da residencial, que estava na cozinha, mesmo em frente ao nosso quarto de rés-do-chão, a  preparar alegremente o almoço para a família. Monsieur Pazat não gostou do tema e assobiou. Em vão. A senhora dona dona, subia com a canção, do tom à escala, entrando em apoteose naquele momento no qual o refrão se torna interminável. Agora que estamos acordados e com o aparelho audivo em melodia, que tal fazer algo excitante, que vá bem com as folhitas de pequeno-almoço, sabendo que na residencial isso não era possível. Que tal alugar uma bicicleta e andar por aí a pedalar como se fôssemos putos em idade escolar ou belgas geriátricos em férias? O Gui nem se mexeu. Ainda bem. Realmente não era grande ideia dar ao pedal. Podia ser que nos fizesse mal, que não estamos habituados. Já sei: Horse riding no wild west boliviano, pá? Não és amigo dos cavalinhos? Não queres ser o Gary Grant da Normandia, a cruzar as longas avenidas da wilderness aqui ao lado? Pazat não é da Normandia. Nem ele me perdoava se não fizesse este esclarecimento, já que tinha acabado de carregar num botão sensível. E ainda não tinha abordado o processo através do qual se chega ao &#8220;foie gras&#8221;. Ser normando, tirando os normandos, é coisa que aparentemente nenhum francês quer ser. &#8220;Deves estarrr a passarrr-te Luís!&#8221; Vá lá, se quiseres acho que podes chicotear o animal&#8230; Nada. Não me digas que queres ir de jipe para Wañusca, que fica a mais de cinco horas, a armar aos cucos com uma viatura todo-o-terreno, quando deixaste o nosso menino, só e sem água no radiador, debaixo de um telheiro que quase vinha abaixo quando lhe batemos de traseira ao estacionar? Responde a isto, s.f.f. &#8220;Passa parrra cá as folhas, pá!&#8221;. Não. Só se formos a San Vicente, a 4200 metros acima do mar, para ver as supostas campas de Butch Cassady e do inseparável Sundance Kid. Sim ou sopas, franchotti?</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_02.JPG" alt="dia78_02.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Não me digas que não sabias que foi em Tupiza que os lendários &#8220;outlaw&#8221; passaram os seus últimos dias? Por favor, diz-me que sabes que o banco de Tupiza foi assaltado por esta dupla, que acabou por imortalizar Paul Newman e Robert Redford, antes, muito antes, deste último nos ter pregado uma seca de mais de duas horas a encantar cavalos, a segredar coisas estranhíssimas aos animais, que agora não vou repetir, Pazat. Estás a ouvir, Pazat? Pazat. Bom-dia. Queres que te cante uma canção do Julio Iglesias? Não sei porquê, há uma que não me sai da cabeça. Pazat, queres apostar que há uma pizzaria com o nome da cidade? Pazat, achas que hoje vais tomar duche? Pazat, gostas de ter os pés pretos? Pazat, se fosses francesa tiravas os pêlos das axilas? E o buço, Pazat? Acharias inestético? Marcarias assim a tua posição no ilusório mundo macho, mesmo à custa de comichões nas cavidades nasais? Pazat, sabias que quando fazemos a barba vão à viola pelo menos dois milhões de unidades de pelosidade? Pazat, sabes porque é que a malta do CDS-PP usa aquelas franjas e os pullovers às costas e calças vermelhas com sapatos de vela? Pazat, sabias que o Paulo Portas gosta de fotocopiar? Estás consciente que a capital do estado de Nova Iorque é Albany? Sabias que a luta pela independência da Bolívia começou em 1809? Sabias que a Bolívia só proclamou a independência em 1825? Sabias que Pushkin, o grande poeta russo, esteve apaixonado por uma portuguesa? Quando é que é a Volta à França? Quantos pontos percentuais de popularidade já perdeu o Sarkozy? Conheces melhor maneira de perder pontos percentuais? Quantas pastilhas para a garganta achas que toma por mês um pastor da IURD? Qual foi a primeira vez que ouviste Xutos &amp; Pontapés? Ainda aguentas aquela conversa sobre a luz de Lisboa? Já pensaste que &#8220;micro&#8221; e &#8220;soft&#8221; pode conter informação subliminar e dizer mais sobre o Bill Gates do que se pensa? Conheces pessoas que dizem que o seu maior defeito é ser perfeccionista? Sabias que o Evo Morales tem uma assessora de imagem? Sabes que no Vietname as mulheres fogem do sol e usam collants e meias e luvas reflectoras e máscaras de cirurgião? Sabias que português em vietnamita é Bo Da Nha? Sabias que o Bush recebe o Dalai Lama e o Cavaco Silva não é capaz de fazer o mesmo? Pazat, sabias que em certas confeitarias do Porto ainda se vendem &#8220;bombocas&#8221;? Pazat, sabes o que são &#8220;bombocas&#8221;? Sabias que o cão do Nixon se chamava Checkers? Pazat, sabias que Tupiza foi em tempos um centro mineiro da Bolívia, mas que não resistiu à grande depressão dos anos 80? Então não é que o Butch franciú tinha adormecido e, não só isso, estava a apneiar de nariz para o tecto. O próprio Redford não faria melhor. Bom&#8230; sendo assim vou almoçar. &#8220;Esperrra aí que eu também vou&#8221;. Extraordinário.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_03.JPG" alt="dia78_03.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Tupiza, sobretudo pelos habitantes de Tupiza, é considerada a &#8220;jóia da Bolívia&#8221;. E não deixa de ser, pois sobre ela há um anel montanhoso que a protege de tudo o que vigora nas grandes cidades, com expoente na sua capital, La Paz, la antítese. É uma cidade pacífica, onde todos se cumprimentam à passagem, onde os turistas pousam as coisas e vão aos &#8220;baños&#8221; e encontram-nas no caminho de volta. Num largo da cidade, que não é o principal, há rapaziada jogar &#8220;snooker&#8221; ao ar-livre em mesas minúsculas. O comércio é todo pequeno comércio. Só parece grande quando se atravessa a feira, que tem bancadas sobre bancadas onde se vende de tudo, de transistores a pilhas, os bons dos CD´s piratas, as coloridas roupas de criança, a roupa típica e indígena que as indígenas mais velhas não dispensam, a roupa &#8220;pós-moderna&#8221; de &#8220;griffe&#8221; duvidosa que as adolescentes procuram, as capas para os telemóveis, as ferramentas para os homens, as frutas, a folha de coca, os condimentos, as especiarias, a carne, material em enésima mão para os carros velhos que compõem o parque automóvel de Tupiza, não contabilizável em emissões, como se alguém quisesse tratar dessa contabilidade, como se nós estivéssemos em condições de abordar esse tema, depois de mais de dez mil quilómetros a bordo do nosso Falcon. Depois do almoço, foi uma tarde lânguida, vagarosa, passeando, convivendo, aprendendo, deixando que a noite chegasse da mesma maneira. À noite, Tupiza ganha outra vida. E as famílias saem à rua, para acenar às pessoas a que tinham acenado ontem, a quem hão-de acenar amanhã. Sentámo-nos num banco de jardim, como toda a gente fazia, deixando-nos estar a assistir a este desfile pacífico de pessoas tranquilas, com outra noção de tempo e de espaço. Se lhes perguntarmos, como perguntámos, os novos sonham em sair e os velhos nada mais querem se não ficar nesta amostra de Bolívia, longe de uma Bolívia muito maior.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_04.JPG" alt="dia78_04.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_05.JPG" alt="dia78_05.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_06.JPG" alt="dia78_06.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia78_07.JPG" alt="dia78_07.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
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		<title>Paraíso Perdido</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Apr 2008 00:18:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Zona Visão]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/plano1visao.thumbnail.jpg" alt="Paraíso Perdido &#124; Estação do Calor" class="imageframe imgaligncenter" /></p>A Península de Valdés, património da Humanidade, El Calafate, a cidade do Parque Natural dos Glaciares, e Ushuaia, a mítica urbe do Fim do Mundo, são as artérias do coração turístico da Patagónia. Vivem do mesmo: do estranho paradoxo de ser território protegido, mas não conseguir proteger-se. Do perigo de sempre: o Homem]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Península de Valdés, património da Humanidade, El Calafate, a cidade do Parque Natural dos Glaciares, e Ushuaia, a mítica urbe do Fim do Mundo, são as artérias do coração turístico da Patagónia. Vivem do mesmo: do estranho paradoxo de ser território protegido,  mas não conseguir proteger-se. Do perigo de sempre: o Homem </strong></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/plano1visao.jpg" alt="Paraíso Perdido | Estação do Calor" class="imageframe imgaligncenter" height="310" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/plano2visao.jpg" alt="Paraíso Perdido | Estação do Calor" class="imageframe imgaligncenter" height="318" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/plano3visao.jpg" alt="Paraíso Perdido | Estação do Calor" class="imageframe imgaligncenter" height="318" width="500" /></p>
<h1>Slideshow</h1>
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<h1>Diário de Viagem (dias relacionados)</h1>
<p><strong>Puerto Madryn e Puerto Pirâmides:</strong><br />
<a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/16/dia-15/" >Dia 15</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/17/dia-16/" >Dia 16</a>  <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/18/dia-17/" >Dia 17</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/19/dia-18/" >Dia 18</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/20/dia-19/" >Dia 19</a> e <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/21/dia-20/" >Dia 20</a></p>
<p><strong>El Calafate:</strong><br />
<a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/01/31/dia-30/" >Dia 30</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/01/dia-31/" >Dia 31</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/03/dia-32/" >Dia 32</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/04/dia-33/" >Dia 33</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/05/dia-34/" >Dia 34</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/06/dia-35/" >Dia 35</a></p>
<p><strong>Ushuaia:</strong><br />
<a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/18/dia-47/" >Dia 47</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/19/dia-48/" >Dia 48</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/21/dia-49/" >Dia 49</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/22/dia-50/" >Dia 50</a>, <a href="http://www.estacaodocalor.org/2008/02/26/dia-51/" >Dia 51</a></p>
<p><strong>Quer imprimir, não quer? Então imprima, mas depois não venha cá falar do ambiente…</strong><br />
<a href="http://www.estacaodocalor.org/download-manager.php?id=5">Paraíso Perdido (.pdf)</a></p>
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		<title>Dia 77</title>
		<link>http://www.estacaodocalor.org/2008/04/03/dia-77/</link>
		<comments>http://www.estacaodocalor.org/2008/04/03/dia-77/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 02 Apr 2008 23:01:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5894.thumbnail.JPG" alt="_mg_5894.JPG" class="imageframe imgaligncenter" /></p>
Pelo óbvio da razão, noite mal dormida. Afinal, o autobus para a cidade de La Quiaca, ainda Argentina, não era às quatro, mas às sete da manhã. Para variar, uma boa notícia. Não eram propriamente mais horas de sono, mas ao menos eram horas de cama. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5894.JPG" alt="_mg_5894.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Pelo óbvio da razão, noite mal dormida. Afinal, o autobus para a cidade de La Quiaca, ainda Argentina, não era às quatro, mas às sete da manhã. Para variar, uma boa notícia. Não eram propriamente mais horas de sono, mas ao menos eram horas de cama. Às seis e tal San Salvador de Jujuy ainda estava adormecida, assim como estavam os cartazes e os manifestantes, dentro das suas tendas de campismo, junto à praça onde fica a autoridade provincial, a caminho para a estação de autocarros, esta sim, a fervilhar de gente atarefada, com sítio para ir e horários para cumprir, uns sentados a espreguiçar a noite, outros de pé a deixar escapar o sono por entre os dedos que tapavam a boca aberta, outros enfiando os últimos pedaços de &#8220;desayuno&#8221;, outros de olho nas suas malas enormes, outros a equilibrar mochilas de viagem, retro e frontal. Os jornais davam conta da jornada de protesto, manifestando luto pesado pela morte do jornalista, embora ainda estejam por clarificar as razões da sua morte. Desconfio que vão ficar por clarificar ainda muito tempo, mesmo que um dos seus carrascos tenha sido capturado horas depois. Juan Carlos Zambrano era jornalista na Rádio LM8 e no Canal 7, de televisão, tinha 46 anos e estava a chegar a casa, na companhia da sua mulher, que assistiu à sua execução à queima-roupa, portanto, ao seu lado, amparando-o até ao fim, que se verificou segundos depois de um tiro na nuca, exactamente como fazem os cobardes, amadores ou profissionais.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5876.jpg" alt="_mg_5876.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Não é por ter sido um jornalista, porque profissão nenhuma está acima de um homem. Seria, por isso, uma parte ínfima da estatística dizer que outros três jornalistas ficaram feridos na manifestação, colhidos por balas, estas de borracha, e um representante do sindicato argentino dos professores do secundário, colhido pela fúria caceteira dos funcionários da autoridade. O número de manifestantes que sangrou correspondia vagamente ao seu estatuto anónimo. Era uma espécie de inexistência. Ou seja, imprecisão. Juan Zambrano morreu. E é por isso. É por ter sido um assassinato. É por ter sido algo que aconteceu, simplesmente porque pode, nesta Argentina democrática, tão democrática como a democracia representativa norte-americana, tão sul-americana como as outras, tão de leste europeu, tão europeia como as da nossa Europa. O podre está aqui, no imenso aqui. E, sendo assim, não é uma ferida argentina, mas uma doença global, no sentido apátrida do termo.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5929.JPG" alt="_mg_5929.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>O método nem sequer é inovador, não tivesse anos o protesto das Mães da Praça de Maio: Balas para matar, matar para calar, balas para propagar a política do silêncio, &#8220;real politik&#8221; de calibre 38 para atordoar os que pensam, corpo morto e autopsiado, corpo morto e chorado, corpo morto e enterrado, notícia de dois dias, efeméride, esquecimento perpétuo que há-de ser. Que fazer? &#8220;Por supuesto&#8221; apanhar um autocarro para a Bolívia, onde a vida também não tem grande cotação.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5947.JPG" alt="_mg_5947.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>No dia anterior tínhamos combinado com o dono da residencial deixar ficar ali o Falcon por uns dias. Claro, a troco de pesos. As ruas de Jujuy não estavam propriamente para deixar viaturas estacionadas, quanto mais não fosse porque a polícia, quando não estava ocupada a reprimir, ocupava-se a multar. Por sorte, calhou-nos na rifa os melhores lugares do autocarro, na primeira fila do primeiro andar, com vista panorâmica para as quatro horas e tal de viagem, que neste caso tínhamos pela frente. As energias não estavam em pleno, instalada que estava uma enorme ressaca de um estranho nada, azedando a disposição, açoitando de mil maneiras o pensamento, cinzento como o tempo lá fora. Como não há interruptor para estados de alma, decidi ser transportado, vendo cinematograficamente o filme inédito que havia de chegar, depois dos primeiros quilómetros terem transposto a parte que fizémos de carro dias antes, ao chegar a San Salvador de Jujuy. A banda sonora, estava no meu poder escolher: Radiohead? Apropriadamente, Karma Police? Não. Tricky. A violência que tem na voz telepatiza qualquer coisa de tranquilo. E desliguei-me.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5954.JPG" alt="_mg_5954.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Ao meu lado direito, monsieur Pazat. Ao lado direito de monsieur Pazat, uma senhor de meia-idade, ou lá o que é isso, com um terço que agarrava com as duas mãos, depois de assinalar no peito uma cruz invisível, olhando para o alto, como se visse para lá do tecto platinado do autobus, rezando para lá, como se estivesse a fazer &#8220;playback&#8221; do Tricky,  pedindo certamente protecção. Por mim, tudo bem, desde que não fosse policial. Desde que não me arrancassem os &#8220;headphones&#8221;, desde que não me tirassem as folhas de coca do canto esquerdo, desde que não me afastassem a bochecha do mesmo lado da janela, desde que não retirassem os meus pés da parte da frente, desde que não me obrigassem a dizer uma palavra, desde que não me obrigassem a escutar o mundo dos outros, desde que não me arrancassem abruptamente do meu.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5983.JPG" alt="_mg_5983.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>&#8220;Frame by frame&#8221;, a paisagem foi mudando. &#8220;Frame by frame&#8221;, fiz as pazes com a Argentina. Primeiro uma vegetação abundante que tornava a estrada estreita, depois as montanhas, as rochas, uma doce e longa desolação, montanhas de novo, planícies de novo, retrospectiva de Patagónia, imensidão. De vez em quando o autocarro estacionava em pequenos pueblos, para largar passageiros, para receber outros. O homem do terço, que depois de umas três horas de viagem ainda não o tinha largado, largava-o agora para utilizar tecnologia terrena: Um telemóvel, com certeza para anunciar a quem interessasse que tinha chegado. Não posso dizer com exactidão, que não estava para ler lábios e tinha o volume no oito, escala de dez.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_5985.jpg" alt="_mg_5985.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Chegámos a La Quiaca, coisa diferente de chegámos finalmente a La Quiaca. Não gosto especialmente de autocarros, mas estava a gostar de estar neste. E foi com dificuldade que retirei os bloqueadores de gente, para nela aterrar. Era exactamente como se me viessem informar que o IVA baixou em Portugal, que em Portugal não se fala noutra coisa se não numa aluna do Porto que gostava muito do seu telemóvel, que os portugueses estão a pagar mais pelos serviços de saúde, que provavelmente a taxa de desemprego voltou a subir, que o Paulo Bento deu mais uma conferência de imprensa com o risco capilar a três quartos, que o apito continua dourado, enfim&#8230; todas aquelas coisas que mudam irreversivelmente a vida dos portugueses à hora do Telejornal se não houver transmissão directa de um jogo de futebol.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_6027.JPG" alt="_mg_6027.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>La Quiaca é a última paragem. Ou a primeira, para quem chega da Bolívia. É uma cidade onde os argentinos são bolivianos e os bolivianos argentinos. É uma cidade de bancas de venda, que tem um jardim municipal onde acampa gente e uma estação de serviço, que fica na avenida para a fronteira, de onde vem e para onde vai uma procissão de passaportes. Porque não somos bolivianos temos direito a passar à frente de todos os bolivianos que esperavam para reentrar no seu país. E, como não somos norte-americanos, temos direito a entrar sem ter de pagar 150 dólares e sem ter de apresentar um sem-fim de documentação, resposta à letra às leis aduaneiras norte-americanas. Em coisa de meia-hora estávamos em Villazon, a cidade boliviana, do outro lado. E eis-nos noutro mundo, como se tivéssemos acabado de entrar na Feira do Relógio ou na Feira da Ladra dos preços baixos, ultra-lojas dos 300, analisando bem o câmbio para &#8220;bolivianos&#8221;, moeda boliviana. Passando essa avenida de bancas e de pó, um jardim, onde &#8220;gamaram&#8221; com grande mestria a camisola do Pazat, onde passeavam mini-bolivianos em fatiotas colegiais, macro-bolivianas com as suas saias, os seus chapéus de côco típicos, as suas feições indígenas e orgulhosas disso, o seu olhar diferente, desconfiado e, lá ao fundo, uma doçura. Toca comprar os bilhetes. Mas para onde? Para Tupiza, a cinco horas de distância, coisa intraduzível em quilometragem. Tupiza seria, quatro horas depois, a bordo de um autocarro que era mais uma autocaravana, a cair de podre, como a maior parte da dentição da esmagadora maioria dos passageiros, que sorriam e riam e desatavam às gargalhadas por nada e por tudo. Era um grupo polivalente de mascadores de coca que ali se tinha juntado. E, para nossa desgraça, gringos do caraças, tinham-se acabado as cem gramas que comprámos em San Pedro de Atacama. Foi aqui que conseguimos dormir. Quando acordei, estava com a cabeça presa ao corpo, a meio do corredor do autocarro, com meia-dúzia de bolivianos a rir. E, a rir, acordei em Tupiza, julgando que ainda estava a meio do caminho.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/_mg_6040.JPG" alt="_mg_6040.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Mal chegámos, fomos directos ao comércio local, onde comprámos mais cem gramas de folha de coca, numa velhota que mascava do que vendia, o que é sempre bom sinal. Em euros, gastámos cerca de cinquenta cêntimos. Logo de seguida arranjámos um &#8220;estaminé&#8221;, para o qual tínhamos de comprar tudo o que era necessário, papel higiénico incluído, que nos ia custar por dia módicos três euros, depois fomos jantar num restaurante atestado de fotos do James Dean, bebemos meia-dúzia de Huari, cerveja boliviana e mascámos de volta ao quarto. Para dormir o que faltava dormir. A &#8220;hoja&#8221; não estava a ajudar.</p>
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		<title>Dia 76</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Apr 2008 23:01:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_001.thumbnail.jpg" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_001l.jpg"  />Agora que estamos onde não estamos, tendo tempo exíguo para estar, estejamos por uma vez exactamente no ponto onde deixámos de estar, tão focados, tão centrados, cruzando alegorias, figuras de estilo, agudas, graves, proparoxítonas, verdes, amarelas, azuis, baças, como as vidraças da nossa pensão-hotel-hostel-residencial em San Salvador de Jujuy, ilusoriamente rachadas de chuva, que caia a destempo lá fora, ponto de desencontro do nosso "desayuno".(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_001.jpg" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_001.jpg" height="333" width="500" />Agora que estamos onde não estamos, tendo tempo exíguo para estar, estejamos por uma vez exactamente no ponto onde deixámos de estar, tão focados, tão centrados, cruzando alegorias, figuras de estilo, agudas, graves, proparoxítonas, verdes, amarelas, azuis, baças, como as vidraças da nossa pensão-hotel-hostel-residencial em San Salvador de Jujuy, ilusoriamente rachadas de chuva, que caia a destempo lá fora, ponto de desencontro do nosso &#8220;desayuno&#8221;. Passava-se tudo lá fora. E nós cá dentro. Havia desagrado lá fora. E nós cá dentro. Haviam manifestações lá fora. E nós cá dentro. Estava a Argentina lá fora. E nós cá dentro, a sorver leche e café, reclinados num cansaço que nem sequer faz sentido. E acaba-se aqui o plural.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_002.jpg" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_002.jpg" height="333" width="500" />Não estou assim tão cansado. Senti só o corpo dormente. Se calhar não está tão dormente como as centenas de manifestantes que dormiram numa tenda em frente à praça do governo provincial, pedindo algo melhor, desconfiando que, tão cedo, não haviam de ter o que pedem. Tão burguês me senti, tranquilo na minha cadeira, pronto a pagar qualquer coisa que achava barato, sabendo que a Argentina, desculpem, os argentinos, sabem que custa caro. Estava no ponto confortável da assimetria. Pessoas passavam, genuínas, fortes, reclamando direitos. E eu, que não tenho poder de conferir, não aguentei mais lá dentro. Foi a alma que me chamou. Foi ela que me disse que esta viagem, mesmo na vertigem do fim, não era viagem nenhuma se não acompanhasse estes argentinos na sua marcha, marchando com eles, mesmo sem saber exactamente porque marchavam, tendo a certeza que marchavam por algo justo. Foi como se naquele instante tivesse regressado a Portugal, às suas idiossincrassias, e não as bebesse, como um café com leche global, aqui representado nas suas características regionais, sempre nacionais. Eram professores, alunos, agricultores, mães e pais e filhos, tudo, qualquer que fosse a sua função pública. Eram pessoas que passavam. E não haviam de passar por nada.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_003.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_003.JPG" height="333" width="500" />É óbvio. É isso que é uma viagem. Não é ver os sítios, não é passar pelas pessoas sem receber a sua marca, os seus pontos, a sua latitude, não é não estar. E também não é por estar tempo de mais que estamos. Muitas vezes, tantas vezes, é só estar. É só encontrar aquele ínfimo, aquela ponta de partícula, aquele lugar onde estranhos se conseguem encontrar, nunca mais se encontrando. Isso, é viajar. Não é ser profissional do olhar. É, simplesmente, sentir. As pessoas, as coisas, a sua relação, a expressão, como apertam, como abraçam, como fazem o contrário e porquê. O inverso é certo. E certo é o inverso. E se nisso não houver confluência é porque nenhum dos inversos é certo, tão certo como o inverso que isso é.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_004.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_004.JPG" height="333" width="500" />Jujuy é, portanto, uma espécie de regresso ao ponto de partida onde nunca estive, ponto do qual hei-de regressar. E, nesse ponto onde regressei, parti para o ponto onde estou, exactamente onde estava antes de partir.  E mentia se não estivesse a viajar neste momento. E não quero mentir. Quero só chegar. Quero só partir. É por isso que estou onde estava: Em Jujuy, onde estive um certo dia da minha vida, só mais um dia na vida dos que passavam. Tenho a impressão que percebo a curvatura do tempo, a lógica da imprecisão. Sinto que a soma de três mais dois são seis. Sinto-me como se não estivesse cá, onde não estou. E, sinto-me lá, precisamente onde estou. Não sei o que engrandece a viagem, mas sei que engrandece. Não há outra forma de termos escala adequada do nós que nós somos, bilhetes de ida e volta, anões do mundo, julgando sempre que nos é dada a oportunidade, julgando-nos oportunidade sempre que é nosso o julgamento. Não somos mais. E não somos menos. Somos só a nossa capacidade de ser enquanto estamos onde estamos. Viajar é viajar é viajar é viajar. É liberdade, é pensar. E, para isso, nem sempre é necessário sair. É só preciso saber estar sem nunca estar. É só preciso nunca ficar, como faziam os que marchavam em Jujuy, em direcção à carga policial lá ao fundo.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_005.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_005.JPG" height="333" width="500" />Lá ao fundo, a rua cercava-nos. Agitavam-se bandeiras, acendiam-se tochas, soavam os bombos, como se a equipa local tivesse ganho o campeonato nacional. Nem por sombras. Todos os que marchavam tinham perdido alguma coisa. Todos os que marchavam, marchavam. Tinham o que era preciso. Têm. Têm tudo o que não têm os olhos  estáticos que os vêem passar. Já não estava ali. Estava lá, com eles, passeando-me onde eles caminhavam, julgando que sabia, não sabendo. Gritava-se pelo que alguns de nós damos de barato. Saí de um país pretensamente rico, com inflacção a comprová-lo e um ditador defunto a habitar o pesadelo de gerações e gerações, para aterrar no pesadelo desta geração, que marchava para a geração que não quer ser. Viajando, portanto. Tomando pela força os seus bilhetes para a viagem, reclamando-os nas ruas sombrias da sua administração.<img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia76_006.JPG" class="imageframe imgaligncenter" alt="dia76_006.JPG" height="333" width="500" />Nesse dia, que havia de ser longo, a marcha foi imparável, os gritos ouviram-se, o cordão de gente uniu-se e passou sem poder que o parasse. Durante um dia inteiro San Salvador de Jujuy foi percorrido por esta força imensa, que havia de ser nacional, havia de cortar as estradas principais, havia de chegar às ruas de Buenos Aires, junto à Casa Rosada, onde dorme quem não escuta, tantas vezes uma tradição argentina. Ao cair da noite, ninguém desarmava. Esta manifestação foi também uma demonstração de vitalidade do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, embora a sua génese - a maior revolta indígena da história do Peru e dos incas e das nações da América do Sul, contra o invasor espanhol - não estivesse nas ruas de Jujuy. O movimento Tupac Amaru tem hoje em dia outra dimensão e outra função social. A polícia de choque argentina sabe disso, mas também sabia que era o momento de avançar sobre os manifestantes, que agora erguiam tochas de fogo. Na massa uniforme, houve hesitações. E quando a polícia carregou, o grupo desagregou, às voltas sobre si, sem saber muito bem para onde correr com as crianças ao colo. Correram para onde havia espaço, tropeçando, caindo, fugindo, ofegando, reagrupando mais tarde na praça do município. E, entre as centenas que ali permaneciam, sob o olhar atento da polícia, gerou-se um estranho silêncio, um murmúrio grosso, recobrando forças para mais uma noite ao relento.Nós, no dia seguinte, tínhamos de apanhar às quatro da manhã um autocarro para La Quiaca, cidade fronteiriça com a Bolívia. Teríamos de atravessar a fronteira a pé e só depois apanhar mais um autocarro, ainda não sabíamos bem para onde, mas havíamos de decidir quando lá chegássemos. No terminal de autocarros de Jujuy comprámos os bilhetes. No regresso, as ruas tinham regressado à normalidade. Mera ilusão. Nessa noite, um jornalista argentino foi assassinado à porta de sua casa, em San Salvador de Jujuy. Esta Argentina fronteiriça, com tantos destinos e tanta mescla, pintou a sua noite de luto. Na praça do município, crescia esse silêncio. E, nesse silêncio, havia revolta. Nesse silêncio, como numa viagem, a distância nunca é longa, apenas curto o regresso.</p>
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		<title>Dia 75</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Apr 2008 13:28:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_001.thumbnail.JPG" alt="dia75_001.JPG" class="imageframe imgaligncenter" /></p>Tantas coisas para fazer e só uma manhã para fazê-las. O mais urgente primeiro: Mesmo antes de pagar o estaminé de estrela e meia, directos para o largo da igreja de San Pedro de Atacama, onde há uma feira permanente de artigos regionais. Ali se encontram roupas típicas, artesanato típico, condimentos típicos, típico típico, típico atípico e afins de típico. E, na banca de umas velhotas bolivianas, folha de coca para mascar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_001.JPG" alt="dia75_001.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Tantas coisas para fazer e só uma manhã para fazê-las. O mais urgente primeiro: Mesmo antes de pagar o estaminé de estrela e meia, directos para o largo da igreja de San Pedro de Atacama, onde há uma feira permanente de artigos regionais. Ali se encontram roupas típicas, artesanato típico, condimentos típicos, típico típico, típico atípico e afins de típico. E, na banca de umas velhotas bolivianas, folha de coca para mascar. San Pedro de Atacama e Punta Arenas são dos dois locais mais inflaccionados do inflaccionado Chile, mas a folha de coca estava a bom preço. Sendo assim, como não sabíamos as provações que íamos passar em alta montanha, decidimos comprar umas cem gramas, o que dava para pôr um regimento a mascar. Logo de seguida fomos ao supermercado local comprar quinze litros de água e cinco doses de bolachas, meramente decorativas. Sabe-se lá porquê, não estávamos a contar ter muita fome.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_002.jpg" alt="dia75_002.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Correcção: O ponto mais alto do Paso de Jama não fica a quatro mil e 800 metros, mas a quatro mil e 200, o que em nada retirava às opiniões que fomos recolhendo. Nem Oscar, o nosso artista local, que na noite passada se tinha despedido da namorada para viajar connosco, tinha admitido a possibilidade de seguir para a Bolívia através do Paso de Jama. Se chovesse, era certo que íamos ficar atolados. Se não chovesse, era igualmente certo que o carro não resistisse a mais de 300 quilómetros de estrada para lá de dura. A alternativa era seguir em direcção à fronteira argentina, a mais de 300 quilómetros. Ou seja, fôssemos para onde fôssemos, era boa ideia levar um bidão de gasolina. Gasolina, sabíamos onde havia, mas encontrar um bidão estava tão fácil como tropeçar numa vela nova em San Pedro de Atacama. Do meu périplo pedestre pela cidade, lembrei-me de uma loja onde havia de tudo e uma septuagenária simpática a atender. Também havia um canídeo minúsculo, de três patas, que a velha perseguia com um martelo quando chegámos ao seu estabelecimento. Era na brincadeira, tranquilizou a provecta. Mesmo que fosse a sério, o cão, ainda assim, tinha maior velocidade de ponta. O mais importante é que a senhora tinha um bidão de vinte litros que podia dispensar. E também tinha líquido anti-congelante e &#8220;aceite&#8221; denso para o motor. Mas que maravilha de estabelecimento. Só lhe faltava uma vela para ser perfeito. Mas agora não convinha pensar nisso.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_003.JPG" alt="dia75_003.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Monsieur Pazat não estava convencido na opção Bolívia. Eu estava para aí virado, mas não tinha argumentos para dar substância à vontade. Pelo que seguimos para a fronteira, para mostrar o passaporte, os documentos do carro e recolher as últimas opiniões de quem conhecia bem o território. Nas proximidades aduaneiras, um boliviano optimista disse que era perfeitamente possível, desde que o terreno não estivesse enlameado. O truque era apanhar um camião que fosse para lá e ir atrás. Assim, quando o carro empanasse, pedíamos para ser rebocados. Quanto à gasolina - ou a falta dela - também não seria problema, que há sempre pessoal que passa de 4&#215;4 para vender nafta aos distraídos pelo quádruplo do preço. Não era propriamente excitante. Outro boliviano, pura e simplesmente opinou com um gesto universal, colocando o indicador na zona parietal. O señor fronteiriço desatou a rir quando olhou para o carro. Por fim, quando a chave já estava na ignição e a papelada tratada, apareceu um chileno com nacionalidade argentina, que vivia na Bolívia, declarando-se profundo conhecedor das rutas e contra-rutas desta indecisão. Saindo da aduana, tínhamos de virar à esquerda. E depois tínhamos 50 quilómetros de subida para lá de íngreme, embora Jama propriamente dita ficasse a 150 quilómetros. Era o teste mais difícil para o 006, que estava atestado, com um bidão de 20 litros no assento traseiro, cheio de água, a abarrotar de &#8220;aceite&#8221; e líquido anti-congelante. Estava decidido: Não conseguiamos decidir. Lá em cima, logo se via. Somos portugueses, ou quê, franchotti? &#8220;Porrrtugueses&#8221;. Boa resposta.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_004.JPG" alt="dia75_004.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>E eis-nos na longa recta antes da longa subida para o Paso de Jama. Atenção, preparados: &#8220;Hoja&#8221; à boca. Toca a mascar, colocando as folhas de coca ao canto da boca, não as mastigando, apenas sugando o que elas têm de líquido. Ainda a boca não estava dormente quando avistámos um &#8220;ayuntamiento&#8221; de carabineros a meio da recta, que nos acenava efusivamente. Monsier Pazat engoliu a dose. Eu, que sou para lá de distraído, sai a mascar. Tanto nos tinham falado dos tenebrosos carabineros, ainda viciados em ditadura, ainda com os tiques de repressão, sempre prontos oprimir. Pois este triunvirato quis ver os documentos do carro, a minha carta de condução, quis falar sobre Portugal, quis saber sobre o Falcon, dizendo que modelos como este já não existem infelizmente no Chile. Infelizmente, neste caso, soou a doce para os nossos ouvidos. Não tínhamos nada a esconder, tirando as cem gramas de &#8220;hoja de coca&#8221;, assim como dois pacotes gigantes de &#8220;água de coca&#8221; (chá) que tínhamos igualmente comprado na feira. Os carabineros deram um mirone para a mala cheia do carro e mandaram fechá-la. Eram da opinião que o Falcon era carro para a subida que aí vinha e para muito mais, desde que não fosse na estrada para a Bolívia. E, na maior das boas-disposições, desejaram boa viagem e disseram que quando o carro avariasse era só telefonar para eles que eles iam lá a cima buscar-nos. Antes de sairmos, porém, algumas questões: Se tínhamos água? Sim. Se tínhamos líquido anti-congelante? Pois claro. Tínhamos suplemento de gasolina? Estava ali, coberta com uma toalha molhada, pois não abdicávamos de fumar os nosso cigarros. E coca, tínhamos? Bom&#8230; señor &#8220;carabinas&#8221;, se fosse nos states, usava já a 5ª emenda. &#8220;Hojas de coca, tienes?&#8221; Só as que estão na boca e as que estão ao meu lado. &#8220;Muy bueno para arriba&#8221;. Sim, mas aqui, a 2470 acima do nível do mar, também não se estava mal. Despedimo-nos todos a rir. Às gargalhadas. Vamos lá subir isto, Pazat? Pazat, nada disse, ocupado que estava a enfiar a segunda dose de &#8220;hojas&#8221;. &#8220;Vamos, pá!&#8221;, declarou finalmente.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_005.JPG" alt="dia75_005.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>A subir, a subir, a mascar, a mascar, a subir e a mascar, a mascar e a subir. O ambiente a bordo estava do melhor. A paisagem era apenas soberba,  regulando a altitude tendo como ponto de referência o cume do vulcão Licancabur, a cinco mil 916 metros. O Falcon não denotava dificuldades de maior, só muito raramente exigindo a primeira velocidade, que neste caso é compatível com a de um tractor. Quando vimos o desvio para a Bolívia, o carro começou a hesitar, a soluçar, a pedir para parar, o que fizémos de imediato, assim que vimos qualquer coisa parecida com uma recta. Monsieur Pazat já me tinha perguntado por uma ou duas vezes se eu não estaria tonto, porque ele estava um bocadinho. Nadinha, Pazat. Estávamos precisamente no ponto mais alto. O radiador estava a grelhar, pelo que abrimos o capot e deitámos água em cima, deixando-o depois a arejar. Pazat, que andava aos tombos, ainda estava a adaptar-se à altitude. E quando tentou colocar a garrafa de novo no interior do carro, foi quando vi que a coisa estava grave: Abriu a porta, mas falhou o carro. A garrafa ficou no chão e ele julgava que a tinha posto dentro do carro. Pronto: Duas crianças e um Falcon em alta montanha. E se tentássemos fazer uma corrida? Ora gira lá sobre ti próprio a ver o que dá. Pazat estava nitidamente afectado, mas começava a gostar da sensação. Nunca pensei dizer isto, mas revelou-se uma espécie de &#8220;freak&#8221; da altitude, o franciú. E a prova é que se deitou no chão e desatou a rebolar. Depois levantou-se e caiu, claro. &#8220;Se houvesse champagne é que errraaa!!!!&#8221; Nem me digas nada, Pazat. Só então me lembrei: Havia tintol, que tínhamos comprado para situações de emergência, já que era tinto de pacote, marca Alomo. Recordámos a advertência dos mecânicos para não tocarmos em pisco ou vinho nas alturas. Por isso, como não tínhamos pisco, teve mesmo de ser um tinto, que ia muito bem com as &#8220;hojas&#8221;, para comemorar o facto de estarmos ali quando toda a gente dizia que não era possível, fazendo exactamente aquilo que nos disseram para não fazer. Ficamos ali cerca de uma hora, com alegria de meninos no intervalo da escola, a dar descanso ao carro e a desfrutar aquele sítio, ao lado do vulcão Licancabur, onde os incas faziam as suas cerimónias de adoração ao sol, tão perto que estavam dele no seu cume.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_006.JPG" alt="dia75_006.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Entretanto, decidimos seguir para a Argentina, em, direcção à cidade de San Salvador de Jujuy, a 500 quilómetros exactos da cidade de San Pedro de Atacama. As montanhas alternavam com os imensos vales, as suas salinas eram mares brancos, como se fossem de farinha boliviana. Sempre nas alturas, sempre a mascar, o cansaço notava-se bem sempre que saíamos do carro para caminhar uns metros que fossem. A caminho da fronteira, lembrámo-nos de um pequeno detalhe: Aquele de não poder voltar a sair da Argentina com os documentos que tínhamos. A reentrada, em princípio, estava garantida.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_007.JPG" alt="dia75_007.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Na fronteira do Paso de Jama. À travagem do Falcon, soltou-se uma densa nuvem de pó, mas nada de anormal no sítio, em si um só nuvem de pó. Por entre ela era possível distinguir um armazém, daqueles os carros são desmanchados peça por peça em busca de drogas. Não convém esquecer que por ali chega quem vem da Bolívia. Ora bem, passaporte em riste e vamos lá tratar do assunto, mascando a terapia. Tudo conforme, até chegar aos documentos do carro. O quê? Deixaram-nos sair da Argentina com aquela documentação? Yes, sir. Há quanto tempo? Há dois meses e tal. Mas quem? Assim de repente, não nos ocorria o nome do simpático funcionário, nem o da fronteira próxima de Rio Gallegos, nem o da que divide o Chile de Ushuaia. Tínhamos um problema. Tínhamos, señor aduaneiro? Só estávamos a ver um problema se fôssemos funcionários das fronteiras em questão. Que esperassemos lá fora junto ao carro, enquanto ele tratava de confirmar que nós tínhamos mesmo saído da Argentina naquelas fronteiras.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_008.JPG" alt="dia75_008.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Meia-hora depois, saiu o funcionário com cara de poucos amigos, devolveu-nos os documentos e os passaportes e fomos todos para o carro. Chegaram entretanto, um militar com os costados em V, outro funcionário de colete Coronel Tapioca e um canito &#8220;esnifador&#8221;, excitadíssimo com os mil aromas que exalavam do Falcon. Tivémos de tirar tudo da mala. Foi tudo revistado. Pneus, mala, por baixo do carro, no motor e até no interior, onde nenhum dos funcionários arriscou ficar muito tempo. É claro que as &#8220;hojas&#8221; ou o chá de coca não incorrem em ilegalidade. Pronto, voltávamos a colocar tudo no sítio. E &#8220;hasta luego&#8221;, com a certeza que a ida à Bolívia teria de ser de autocarro. Toca de mascar rumo à cidade de San Salvador de Jujuy, de novo na Argentina. Chegámos por volta das 11 da noite, graças a um novo mecanismo para ligar as luzes, que envolve um tubo de cola-tudo, um palito, um elástico e lâmpadas que não estivessem fundidas. Foi uma questão de encontrar um hotel barato e com net. E ali aterrámos a mil e 300 metros de altitude. Coisa que sinceramente já não afectava. Provavelmente porque tínhamos a boca verde.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_009.JPG" alt="dia75_009.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/04/dia75_010.JPG" alt="dia75_010.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
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		<title>Dia 74</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Mar 2008 02:10:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_001.thumbnail.jpg" alt="dia74_001.jpg" class="imageframe imgaligncenter"  /></p>
Que despertar jovial e carregado de energia de polaridade negativa. A altitude estava de novo e fazer das suas. Cansaço. Muito cansaço. Respiração pesada, a caminho do duche que, tal como nos barcos, fica mesmo ao lado da sanita, dispensando cortinas ou quaisquer apetrechos que salvem o papel higiénico de ficar ensopado. Este estabelecimento categorizadíssimo, que servia "desayuonos" ao jantar, jantares ao lanche e, por "supuesto", "almuerzo" ao "desayuno" era uma espécie de bairro típico lisboeta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_001.jpg" alt="dia74_001.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Que despertar jovial e carregado de energia de polaridade negativa. A altitude estava de novo e fazer das suas. Cansaço. Muito cansaço. Respiração pesada, a caminho do duche que, tal como nos barcos, fica mesmo ao lado da sanita, dispensando cortinas ou quaisquer apetrechos que salvem o papel higiénico de ficar ensopado. Este estabelecimento categorizadíssimo, que servia &#8220;desayunos&#8221; ao jantar, jantares ao lanche e, por &#8220;supuesto&#8221;, &#8220;almuerzo&#8221; ao &#8220;desayuno&#8221;, era uma espécie de bairro típico lisboeta. Se andássemos mais de um metro em linha recta a sair da &#8220;habitacion&#8221; já estávamos a entrar noutra. De qualquer modo, fosse qual fosse a ementa seria sempre melhor que o jantar no chinês da noite passada, onde se serviam adaptações de comida típica cantonesa com petiscos chilenos. Tudo acompanhado de pisco de terceira categoria. Dizemos isto, orgulhosamente com propriedade, agora que já podemos degustá-lo profissionalmente.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_002.JPG" alt="dia74_002.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Dia grande: Estávamos apenas a uma centena de quilómetros de San Pedro de Atacama, que há mais de três dias era objectivo, antes de impossibilidades e imprevistos terem conspirado contra &#8220;nosotros&#8221;. Depois de tantos e tantos mil quilómetros, não seriam certamente estes cem, por entre uma galeria montanhosa de quadros magníficos da cordilheira andina, que haviam de se colocar no nosso caminho, que era exactamente onde estavam. O ritual da manhã foi especialmente difícil. E, não fosse termos um sítio para ir, era quase certo que não tínhamos ido. Abre lá o capot, franchotti. Não te importas de ver os níveis de &#8220;aceite&#8221;? Depois dá um mirone no radiador, para ver se tinha água? Monsieur Pazat faz estas tarefas já mecanicamente, em silêncio, como se estivesse na boxe de uma equipa de fórmula qualquer coisa. Vamos então à estação de serviço ao virar da esquina atestar o &#8220;leão&#8221; de nafta, cumprimentando a santinha de tablier com o anelar, ritual que cumprimos diariamente não sei bem porquê. Duas injecções, de ampolas nescafé, para fingir que estávamos cafeínados e toca para a estrada, que a ansiedade já apertava. Era talvez dos percursos menos longos e mais bonitos o de hoje. Embora o nosso chefe mecânico já tivéssemos notado que os travões não estavam no Falcon para travar. Também não eram especialmente decorativos. Mas, nas descidas, sempre que tentávamos usá-los deixavam um aroma a churrasco, anunciando-se que ainda podiam estar para as curvas, mas já não eram de grande utilidade nas descidas vertiginosas que se seguiam às subidas em segunda velocidade. O Falcon não é um trepador. Hoje em dia também não é um velocista. O que é, sim, é um automóvel com todas as letras e acento, o &#8220;v&#8221; grande na palavra viatura, o carro que passa quando os pequenos utilitários estacionam à beira da estrada, envergonhados, à espera de reboque.  Não tem computador de bordo, mas tem a bordo dois tipos que já lhe notam a têmpera, os amuos, as estratificações do seu fôlego.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_003.JPG" alt="dia74_003.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>A propósito: Decorridos pouco mais de cinquenta quilómetros de jornada, a anestesia que o cenário e a altitude nos impunham, foi subitamente interrompida por um estranho barulho, decidamente metálico, que primeiro se manifestou descontínuo, mas depois começou a trovejar como o ressonar de um francês, o mesmo que já punha as mãos na cabeça, que a mim dava-me vontade de fazer o mesmo, embora não me desse muito jeito nas descidas.<br />
Na próxima recta, convinha estacionar para abrir o capot, deixar o motor arrefecer, deitar-lhe um pouco de água em cima, para acelerar esse processo, e tentar ver o que se passava com o coração do Falcon. Tínhamos a certeza que era o motor, até porque era de lá que saia fumo. E isso não era grande certeza para se ter entre o destino e a procedência. Bom&#8230; com calma. Vamos abrir a mala do carro e tirar umas calças, que estava um frio de rachar os calções. Agora, sim, podemos tirar as malas suficientes para encontrar umas ferramentas. Infelizmente, entre a tralha não conseguimos encontrar o nosso alicate. E, após breve reunião, confirmámos um ao outro que tínhamos comprado um algures. O primeiro diagnóstico em relação à possível avaria, foi certeiro. Um das velas dos seis cilindros tinha acabado de morrer, não sabendo nós se isso seria o bastante para o carro não andar. A verdade é que ele andava, embora o ruído e o fumo, que resultava de uma borracha, a mesma que envolvia a vela enferma, estar a derreter. Mais que um alicate, precisávamos desesperadamente de uma vela. E sabíamos que também tínhamos uma algures no carro. Vai de tirar, pois, tudo o que estava na mala do carro. Nada. Vai de vasculhar tudo o que estava no interior do carro. Nada. Vai de desesperar? Não. Vai de mergulhar outra vez na mala do carro, uma piscina de pó. Nada. Vai de desesperar? Não. Vai de vasculhar de novo os destroços de coisas. Nada. Desesperamos ou não? Não. Vai de ligar o carro e avançar lentamente, para melhor apreciar o paraíso onde estávamos, ao som ensurdecedor do motor, poupado nas descidas, embora para isso tivéssemos de arriscar ficar sem travões. Podemos, então, desesperar? Agora também não valia a pena. Foram precisas quase duas horas para fazer cinquenta quilómetros. E eis San Pedro de Atacama, que tem muito mais pó do que a mala do nosso carro, e uma estrada que leva directamente ao fim de San Pedro de Atacama, onde fica o controlo policial e aduaneiro. San Pedro do Atacama é considerada a capital arqueológica do Chile e, para além do já dito, tem um posto de correios (com telefone e fax), um posto médico, o registo civil, o antigo posto de carabineros, hoje ao serviço dos carabineros, tem pousadas e hostels em grande quantidade, restaurantes (&#8221;cocina de autor&#8221;), bares e casas de artesanato a abarrotar, turistas que enchem o pueblo, agências de viagem a promover uma ida ao salar de Atacama ou para esquiar na areia, uma igreja e uma estação de serviço. Mas a grande questão era: Terá um mecânico? No posto aduaneiro achavam que não. Os carabineros achavam que sim. Na estação de serviço aconselharam-nos um rapaz que sabia de motores, para onde fomos de imediato, antes que o Falcon desmaiasse e, de certo modo, para tranquilizar os ouvidos sensíveis dos turistas, algo escandalizados com a presença de um veterano de Detroit naquelas paragens.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_004.JPG" alt="dia74_004.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Demos, portanto, com a dupla de mecânicos mais tranquila da toda a América do Sul, o mais velho boliviano, o mais novo, nativo atacameño. Ambos pareciam também algo afectados pela altitude. Depois de várias tentativas para que respondessem qualquer coisa aos nossos cumprimentos, 15 minutos depois uma resposta: &#8220;Que pasa?&#8221; Passa que estamos aqui há 15 minutos para ver se os meus amigos conseguem arrancar uma certa vela ali do motor. E,  se não fosse muito trabalho, substitui-la por uma nova. O líder mecânico - dono deste magnífico taller -, avançou para o capot previamente aberto, ainda se queimou na vela, soprou o dedinho e disse: Brasileños, macho?&#8221; Há que tempos que não ouvíamos isso, señor Bolívia. Não, de Portugal. Não. Não é no Brasil. E a vela? Precisávamos de uma nova, disse o nosso amigo, já ladeado pelo seu adjunto, acompanhado um aprendiz de aprendiz, que entretanto, chegara de bicicleta. O triunvirato decidiu que para tirar a vela era preciso desmontar parte do motor, o que fizeram com grande dificuldade, embora com aquela tranquilidade de quem sabe que é o único mecânico das redondezas. Não foi fácil tirar o motor, mas foi ainda mais difícil tirar a vela, que entretanto estava &#8220;soldada&#8221; a su sítio.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_005.jpg" alt="dia74_005.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>A custo, lá saiu a vela. Agora, sim, podíamos passar ao problema seguinte: A nossa equipa técnica não dispunha de vela. E também não era certo que houvesse uma vela do modelo de velas em questão em todo o San Pedro de Atacama. Agora até logo, tinham que ir almoçar. E lá ficámos nós, ao calor, a dormir a &#8220;siesta&#8221; no carro, à espera que os amigos fizessem a digestão. Não sei porquê, pensámos que um deles se encarregaria de procurar uma vela, mas não. Lá fui eu correr San Pedro à procura de uma vela, do mesmo modelo daquela que eu levava na mão. Não, não, não, aqui também não. Quando cheguei, o adjunto ofereceu-se para ir comigo de carro, num carro que ele tinha lá para arranjar, que por acaso tinha a caixa de velocidades avariada. Uma hora e tal depois, havia consenso: Não havia uma vela daquele modelo em Atacama. O líder sugeriu então: &#8220;Limpíamos esta&#8221;. Então só bastava limpar a coisa? &#8220;F&#8230;&#8230;&#8221;</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_006.jpg" alt="dia74_006.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Então, e para onde é que nós queríamos ir? Para o Paso de Jama, que por acaso fica a quatro mil e 800 metros de altitude. Ainda não tínhamos decidido se seguíamos directamente para a Bolívia ou se reentrávamos na Argentina, para depois seguir para a Bolívia, caro cinco estrelas. Contámos a anedota do dia. O adjunto ria tanto que quase aterrou com o nariz no lugar onde devia estar a vela, que agora estava a ser limpa pelo aprendiz de aprendiz. Os nossos mecânicos achavam uma loucura subir com o Falcon, ainda pior fazer o caminho para a Bolívia, caso chegássemos ao respectivo cruzamento, entrando numa estrada de gravilha duríssima, impraticável quando chove, pelo menos sem um 4&#215;4. Como viam que estávamos irredutíveis, aliás, não tínhamos escolha, o grande líder deu-nos conselhos inestimáveis: Ir parando o carro e arrefecer o motor deitando-lhe água em cima. Comprar líquido anti-congelante e &#8220;aceite&#8221; mais consistente para as alturas. Quanto aos nossos organismos pouco habituados e esses tipos de altitude, era bom que soubéssemos que há muita gente que se &#8220;passa&#8221; lá em cima, que não convinha bebermos pisco nem vinho tinto, apenas cerveja. E que seria boa ideia levarmos uma boa quantidade de folhas de coca para mascar, que descontrai. Aprovado.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_007.JPG" alt="dia74_007.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Ainda por cima, a operação de limpeza da vela tinha resultado em pleno. O motor rugia de novo com pujança. &#8220;Que lhes vaya bien, chicos!&#8221; Gracias e hasta luego. Conseguimos por algum milagre encontrar o hostel mais barato de Atacama. Depois, jantar. Depois, pisco night. Conhecemos Oscar, artista plástico, com entrevista publicada na Marie Claire, que se sentou à nossa mesa, até cair da nossa mesa. Depois de carregar com Oscar até às proximidade de um bar onde ele quis ficar, fizémos declaração oficial de amizade. Amanhã, quando ele estivesse bípede, continuaríamos a conversa. Era uma da manhã. Por ordem dos carabineros, hora de todos os bares encerrarem. Foi por causa de problemas recentes, informaram-nos. Ainda assim foi possível um último pisco num bar pós-modernista, que tinha uma fogueira a meio e as portas já fechadas. Quando saímos estava Oscar amparado num casal.  Ninguém, mas ninguém com quem falámos sobre a nossa subida ao Paso de Jama com o Falcon achou possível lá chegarmos. Que buena estatística para adormecer.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_008.JPG" alt="dia74_008.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia74_009.JPG" alt="dia74_009.JPG" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
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		<title>Dia 73</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Mar 2008 16:43:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação de Calor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Diário de viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_1.thumbnail.jpg" alt="dia73_1.jpg" class="imageframe imgaligncenter"  /></p>
Então e que tal Taltal? Taltal é daquelas cidades e tal, tal como uma cidade que talvez nem seja bem uma cidade, mais um pueblo e tal, que como tal não é considerado, sendo, portanto, apenas cidade. Agora: Não é decididamente uma cidade e tal Taltal. É só uma cidade perdida no espaço e no tempo e tal, de tal forma que só nos apetecia fazer ali o mínimo e tal, para nos irmos embora e tal e talvez tão cedo não voltar a Taltal e tal. Mas, aparentemente, tal não era possível e tal.(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_1.jpg" alt="dia73_1.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Então e que tal Taltal? Taltal é daquelas cidades e tal, tal como uma cidade que talvez nem seja bem uma cidade, mais um pueblo e tal, que como tal não é considerado, sendo, portanto, apenas cidade. Agora: Não é decididamente uma cidade e tal Taltal. É só uma cidade perdida no espaço e no tempo e tal, de tal forma que só nos apetecia fazer ali o mínimo e tal, para nos irmos embora e tal e talvez tão cedo não voltar a Taltal e tal. Mas, aparentemente, tal não era possível e tal. É que o radiador e tal, não sei se terá sido do líquido tapa-fugas e tal, tinha a maior fuga que já se lhe tinha visto e tal. À porta do hotel, já com as mochilas e tal no interior da mala do carro e tal, estávamos de novo com a disposição estragada e tal, tal como se tivéssemos comido ovos com salmonelas e tal, que em todo o caso seria melhor que o &#8220;desayuno&#8221; que tomámos lá em cima e tal, mas agora cá em baixo decorria o processo psico-motor e tal para ganhar coragem para ir à procura de mais um mecânico e tal, entre os nove mil e tal habitantes de Taltal, que se posiciona no paralelo 24 e tal. E tinha que ser um mecânico e tal, daqueles que não protelam o inadiável e tal, daqueles que diagnosticam aquilo que nós sabemos e tal e actue em consonância e tal. E tal não era a avaria em Taltal que colocar água no radiador era exactamente como despejá-la no chão e tal. E, pronto, esgotada esta tentativa desesperada para evitar ter de procurar um mecânico e tal, o melhor seria mesmo começar a vasculhar Taltal em busca do tal que nos havia de socorrer e tal. Mais fácil seria encontrar um mineiro, porque Taltal e tal é uma cidade de pescadores e de mineiros, que por conta de outrém exploram cobre e tal do território circundante e tal. Mal tal não estava a nossa teima e tal, que não éramos capaz de arrancar do pé do carro e tal, tal não era o cansaço acumulado com avarias do Falcon e tal. Estávamos nisto, quando passa um senhor, de uns cinquenta e tal anos, que olhou para o nós e para o carro e para o carro e para nós e tal, e declarou que nós tínhamos seguramente uma avaria e tal no radiador, que tal seria impeditiva de abandonar Taltal assim. Usted es mecânico? Se tal assim fosse, seria pessoa para pôr imediatamente mãos à obra e tal. Tal era possível, declarou o simpático senhor, que por feliz coincidência e tal, tinha o seu &#8220;taller mecânico&#8221; logo a cima da rua, que acima tinha uns barracas que em Taltal, que acima só tinha a montanha altaneira, com vista para um imenso mar e tal, o mesmo que não deixa a cidade ser maior e tal.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_2.jpg" alt="dia73_2.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>  O nosso mecânico disse logo que ia arranjar o carro, que este estaria pronto dentro de uma hora e tal, mas que não lhe tocaria antes de trocar de camisa, porque a que tinha era nova. Ainda bem que o carro só estava a perder água, porque uma gota e tal já tinha escapado para a tal camisa que referia, um exemplar de golas aeronáuticas, mesclada de rosa e branco e tal. Levámos o carro para a oficina e resolvemos ficar a observar as manobras do mecânico. Podia ser que acelerasse o processo e tal. Não era preciso, pois notava-se que este mecânico e tal sabia exactamente o que fazia e fazia-o depressa. Foi uma questão de retirar o radiador, aplicar uma massa para revestir a área da fuga, depois deixá-la secar ao sol e tal, enquanto nós trocávamos uns dedos e tal de conversa: De onde éramos, o que estávamos aqui a fazer e tal, por que raio andávamos com um Falcon, com matrícula argentina, pelo menos na placa frontal e tal em Taltal, à espera que o radiador secasse para de Taltal poder sair e tal, porque até San Pedro de Atacama, em matéria de quilómetros, ainda nos faltavam uns quatrocentos e tal. Foi como se o tempo voasse. Quando demos por nós estava o radiador em &#8220;su sítio&#8221; e nós à procura do caminho de volta para a estrada de onde saímos ontem, para abreviar caminho para Taltal e tal. Tal dito, tal feito. Adeus Taltal, até ao nosso regresso e tal.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_3.jpg" alt="dia73_3.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>De regresso, sim, à estrada, mergulhados em castanho à esquerda, também à direita, por trás de um navegador aliviado, aliás como eu, por termos agora um radiador que supostamente não permitiria mais fugas, sempre indesejáveis, mais no deserto. Não é que a etapa a fazer fosse longa. Mas a dureza desta etapa não se media em quilómetros. Estrada interminável, de pó, de garganta seca, de respiração difícil, sobretudo com os vidros abertos, que é precisamente o nosso sistema de ar condicionado. Foi uma opção: Preferimos arejar, mesmo que o ar fosse pó.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_4.jpg" alt="dia73_4.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Não foi, por isso, de estranhar que as duas garrafas de litro de água que levámos de Taltal tivessem desaparecido numa hora, equivalente a dizer que as horas seguintes foram de colar lábios. Viagem, portanto, de gestão de silêncios. Não era só a sede. O local impunha-o também. Assim como se impunha uma paragem na Mano del Deserto, que começámos a avistar como se fosse uma miragem. No meio de nada, exactamente de nada, uma mão enorme, aberta ao deserto, como se um gigante ali tivesse ficado soterrado, obra de um artista de Santiago, filho da II Região, Antofagasta, esta onde nos encontrávamos a engolir em seco.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_5.jpg" alt="dia73_5.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="333" width="500" /></p>
<p>Havia, portanto, que seguir caminho, que não era provável a existência de um chafariz por ali, nem mesmo a existência de uma estação de serviço, para a qual ainda faltavam mais cem quilómetros para juntar aos 150 que já tínhamos cumprido. Foi com alívio e sem ele que chegámos a uma terreola, absolutamente imersa em pó, em fumo da indústria que a rodeava, e do vento ciclónico que a varria de ponta a ponta. Foi o tempo suficiente para atestar o carro, bebermos uma garrafa de litro de água cada um, comer um &#8220;choripan&#8221;, como o nome indica uma espécie de &#8220;hot dog&#8221;, mas com chouriço, muito comum no Chile, levar um carregamento de água e seguir de novo caminho, que se fazia tarde e já não nos restava muito tempo de sol. Na estrada, já cruzada por outras em direcção às fronteiras com a Argentina ou com a Bolívia, o vento não estava a facilitar. Era possível ver ao longo os tornados que bailavam ao nosso encontro. Desta vez, óptamos pelo calor, fechando os vidros do Falcon, o que não impedia que o pó entrasse por todas as pequenas, médias e grandes frechas, por onde normalmente entra o vento. Por ordem inversa, nos pés do condutor, na porta traseira e no vidro do lado do navegador.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.estacaodocalor.org/wp-content/uploads/2008/03/dia73_6.jpg" alt="dia73_6.jpg" class="imageframe imgaligncenter" height="500" width="333" /></p>
<p>Mais uma vez o Atacama venceu-nos, pois quando chegámos a Calama, a última cidade antes de Atacama, a cerca de cem quilómetros desta, já só nos restava uma meia-hora de sol, insuficiente para nos arriscarmos a fazer uma estrada dificílima até San Pedro. Calama é mais uma cidade boliviana do que propriamente chilena. A sua população é sobretudo indígena, menos afável ao primeiro trato, mas igualmente simpática, embora sempre mais desconfiada de quem não é de lá, como nós, que denotávamos um estranho cansaço, anormal mesmo para quem anda já algo cansado. Só depois chegámos à conclusão óbvia: A altitude. Estávamos a cerca de mil e 800 metros. Foi exactamente por isso que, assim que encontrámos um hotel barato, assentámos arraiais. Foi por isso que assim que vimos o primeiro restaurante, entrámos. Era um restaurante chinês, que muito nos arrependemos de ter entrado. E foi também por isso que penámos uma hora a pé para tentar conhecer um pouco a cidade, mas voltámos ao hotel como se tivéssemos percorrido a pé todo o Atacama. Não foi fácil subir as escadas, foi com esforço titânico que tirámos a chave do bolso para a colocar na fechadura. O resto foi fácil: Foi uma questão de pegar no comando da TV e ligar o único canal que estava disponível e que transmitia uma bela série chamada &#8220;Secretária executiva&#8221;, a história de uma secretária louraça &#8220;wannabe&#8221;, trepadora social, super-sexy, e de um executivo de meia-idade, que tinha o matrimónio a tremer e uma mulher super-ciumenta a seguir-lhe todos os passos. Como é que a coisa ia acabar? Não faço ideia. Devo ter adormecido passado um minuto e tal. Parecia que estava em Taltal.</p>
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